quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Das penas e do tempo

Edvard Munch. A criança doente, 1896.

Eu envelheci.
Eu perdi a rima, o tom,
não sei dos roteiros,
não sei das cenas,
matei as metáforas,
as metonímias fugiram.
O lápis foi embora
no caminhão do lixo.

Eu envelheci.
E nesse processo biológico
não apareceram rugas.
Os cabelos ainda são negros,
as mãos não confessam,
as pernas se mantêm,
as costas doem pouco
e os caminhos não mudaram.

Eu envelheci.
E nesse desastre ecológico
Destruí a única coisa
A coisa simples
A coisa verdadeira
A coisa cosmológica
A coisa coisa:


Minha alma infanta.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Viagem

Eu tenho que quebrar as cercas da consciência: matar os guardas, atirar nos cães, desativar o sistema elétrico. Eu preciso ampliar limites, caminhar pelas trilhas que ela escondeu, comer do fruto da árvore do bem e do mal e acariciar as onças que ela me fez temer.

Eu tenho que empurrar a porta da consciência. Golpeá-la, destruí-la, queimá-la, e deixar a consciência à mostra, despojada das suas máscaras e sandálias. Quero olhar nos seus olhos e ver o que há por dentro, deslindar as reentrâncias, descobrir os odores, discernir suas estratégias de controle.

Eu tenho que entrar na casa da consciência, encontrá-la no momento mais íntimo de sua existência. Quero vê-la no banheiro, colocando pra fora as asneiras com que alimenta meu cérebro. Vamos tomar café e discutir as louças na cozinha, as flores no jardim, pegar umas mudas pra levar pra casa.

Eu tenho que enganar a consciência. Pedir uma foto antiga, mais açúcar para o café, umas torradas, talvez. A consciência é esperta, pois carrega muita maldade dentro de si.


Eu tenho que entrar no sótão da consciência, pois lá ela guarda o que me é mais precioso.

William Blake. The Angel of Revelation (1803-1805)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

História estendida da humanidade

Era a mulher e as mulheres eram nada.
Era a barriga, uma barriga toda inchada.
Era um útero maior que a mulher.
Era a vasilha, o copo sujo, a roupa seca.

Era um desastre, era a tristeza, era o tormento,
o esquecimento, a dor profunda, funda falta.
Era um corpo, era um cabelo, era uma faca
e na estaca se perdia a vida insossa.

Era um homem que era tudo e nada era.
A hera é ela, ela é o pecado, a maçã podre.
Era um deus, só eram deuses, são só deuses.

E é a culpa e o silêncio e a mortalha.


Mulheres Protestando. Di Cavalcanti, 1941.

Criação de Adão

Deságua em mim uma torrente de lembranças.
A água, no estio, é amarga. O céu nem canta.
Abençoamos nossos filhos e os matamos;
o fim de cada pai, de cada riso, de cada amor
está no altar do sacrifício, nos olhos do deus.
E os deuses? Envelhecem, e só.


William Blake. Elohim Creating Adam (1795/c.1805)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dica de consumo: Sebo Labirinto


Procurando títulos de autores baianos?


O SEBO LABIRINTO TEM!



"O sebo Labirinto não tem loja física. É um sebo virtual, criado por uma amante dos livros. A compra é segura pelo MoIP, serviço que permite várias formas de pagamento, inclusive cartão de crédito. O envio do livro será realizado em até 3 dias úteis após a compra. A entrega é feita pelos Correios, exclusivamente via PAC, e o tempo de entrega depende do CEP do cliente."


PONTOS DE FIDELIDADE

"O cliente do Sebo Labirinto ganha pontos em suas compras. É isso mesmo. A cada compra que some um valor de 20 reais, o cliente ganha 1 ponto de fidelidade. Cada ponto equivale a 1 real em desconto. Compre livros, leia, adquira conhecimento e ainda ganhe bônus com o Sebo Labirinto."



        Pois é. Só em uma curiada consegui encontrar Maria da Conceição Paranhos, o Ricardo Thadeu (cujo livro ainda não tenho), Antonio Brasileiro, Myriam Fraga e mais uma porrada de gente boa. 

       Comprem.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sábado

Lavar os pratos como quem lava o mundo.
Gritar a canção como se houvesse palco.
Perder a noção como se perde o trabalho.
Trabalhar em casa e pagar a si mesma.

Desbaratar labirintos nos tetos de aranha,
varrer as energias ruins para o quintal,
tirar epiderme dos móveis com um pano,
decretar guerra contra as formigas.

Tecer histórias com as cordas do varal,
limpar a reputação refletida no sanitário,
esquecer uma vida enfrentando o guarda-roupa.

Um dia quente, um bocejo, o vento.
A poeira, as plantas, o coentro.
Uma música.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A árvore que caminha



Conta minha mãe, todas as vezes que avistamos uma barriguda, que todas as crianças de sua época temiam essa árvore. Segundo a história contada por meu avô, à noite a barriguda caminhava e perseguia as crianças que passavam por debaixo dela. É na época da seca, quando as árvores do cerrado perdem sua abundante folhagem e nos permitem ver as formas de nossa terra, que o tronco da barriguda é descoberto.




É no sopro da seca, quando a terra morre
para renascer nas torrentes de águas divinas
que  as  barrigudas aparecem.
Mar de galhos. E elas.

O verdadeiro tronco entre os espectros de morte,
galhos finos e retorcidos clamando por uma gota.
A verdadeira substância das terras do lado de cá.
O calcário esfumaça os montes.

Quem nunca temeu suas sombras
no morro das Mangueiras?
Quem nelas encostou para provar sua essência?
São guardiãs de uma cidade que não se sustenta.

Nem buriti, nem ingazeira, nem aroeira,
nem arremedo nenhum de árvore
se compara à figura aterradora
da barriguda e seus cabelos ao vento.

Ninguém viu – a noite é manto – suas caminhadas,
depois do sol posto, da lua alta,
ninguém viu – nem verá, suas passadas.
Não viveram, não contarão nada.