quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Jardim das Esperas

Em meus curtos vinte anos,
nenhum beija-flor entrou por minha janela.
Meu jardim, bem cuidado e cheiroso
não recebe casais apaixonados.

Girassóis desbotam nos cantos;
carecem de um Sol para acompanhar.
Se as rosas ainda prosperam
é porque se riem da efemeridade
de sua própria risada.

Só jasmins gritam seu cheiro
no entardecer mole e escuro
desse Jardim de Esperas,
enquanto um balanço
– sozinho –
dança uma cantiga de roda
cantada pelo vento que,
dia após dia,
se cansa
de soprar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Falta

De todos os dissabores
guardados a sete chaves
no cofre secreto do tempo
um resolveu fugir.

Era noite de chuva fina
e a chuva me dizia
(soluçando baixinho)
que esquecer não valia a pena.

De todos os dissabores
escondidos no coração
– músculo teimoso e vadio –
um queimava feito larva.

Era dia de São João.
Bastou um toque apenas
e ardi feito uma fênix
sem poder de ressurgir.

De todos os dissabores
do livro da minha vida,
escritos a pena e sangue,
um se achava segredo.

Cansou da poeira das horas
E numa revolta de vento
Revelou-se num grito surdo
De acauã sem maldição.

E pedras rolaram soltas
nas ladeiras nuas da cidade,
das ruas que ninguém visita,
da escuridão que ninguém fotografa.

Esmagaram o dissabor.
Aquele que resolveu fugir,
Que queimava feito larva
E revelou-se num grito.

De todos os dissabores
que procurei guardar
nos espaços remotos da lembrança,
foi esse o que mais amei.

E tudo está tão vazio
Falta um pedaço em mim
E, por mais dissabores que eu tenha,
Nenhum é tão grande

Para tomar-lhe o lugar.
No fundo, faz falta.