quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Eu no Sangue Novo

Tive a honra, recentemente, de ser convidada para participar da seção Sangue Novo, do blog de José Inácio Vieira de Melo(http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/), destinada a divulgar poetas inéditos. Está no blog a entrevista e os três poemas escolhidos por ele. Coloco aqui a entrevista na íntegra.


SANGUE NOVO - JANARA SOARES


A POESIA COMO FÉ
 – JANARA Laíza de Almeida SOARES nasceu em Barreiras, em 1989. Morou por 19 anos no município de São Desidério. Cursa Letras Vernáculas no campus IX da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, em Barreiras, onde reside.
Para Janara a poesia é uma profissão de fé e ela mantém essa chama bem acesa para compartilhar com aqueles que têm fome de encantos. Mantém o blog 
Minutos de Silêncio e Outras Fantasias(http://minutosefantasias.blogspot.com/). Vamos ler as palavras de Janara, musa do Oeste, que extrai sua poesia da essência das coisas.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Janara, o que é poesia? Para que serve a poesia? O que lhe leva a fazer poesia? Onde pretende chegar com sua poesia?
JANARA SOARES – Não sei o que é poesia e tenho uma preguiça enorme de tentar definí-la. Engraçado fazer algo que não conseguimos definir. Eu vejo a poesia como fé: você não sabe o que é Deus, mas acredita e ora e prega. Sei, no entanto, para quê ela serve. A poesia serve pra uma infinidade de coisas, ao contrário do que os estudiosos falam sobre a arte, pois tudo o que o ser humano faz serve para algo. Em primeiro lugar, a poesia serve para a intenção do poeta, podendo ser íntima (externar angústias, anseios, tristezas e felicidades) ou coletiva (poesia com cunho social, como força de transformação). É uma forma especial de comunicar aquilo que ninguém vê. Em segundo lugar, a poesia serve para o leitor. Todas as pessoas têm sentimentos intensos, mas nem todas conseguem falar ou escrever sobre eles; aí entra a poesia. Não sei o que me leva a fazer poesia e essa pergunta me inquieta, fazendo com que eu me sinta meio irresponsável... Normalmente os poetas têm uma idéia definida sobre seu “ser poeta”. Eu ainda estou construindo isso. Eu ainda me sinto muito surpresa quando alguém afirma que leu algo que escrevi, e mais surpresa ainda quando gostam. Agora me chega a possibilidade de ser lida, talvez reconhecida. É meu período de amadurecimento.
JIVM – Você lê muito? Qual o primeiro livro que leu? O que está lendo? Quais são seus escritores referenciais? Quais os seus poetas preferidos?
JS – Sempre li muito, exageradamente, quase compulsivamente. Não sei se isso foi bom ou ruim para mim, já que a leitura era algo solitário e eu nunca tinha com quem compartilhar minhas experiências. Demorou um pouco para que eu criasse um círculo social. Não lembro do primeiro livro que li, mas lembro do que tenho como mais antigo em minha memória. É um livro infantil chamado “O Diabo na Noite de Natal”. Não me recordo o autor, mas lembro que misturava o folclore brasileiro com personagens que conhecia do cinema (o Capitão Gancho, Superman, Carlitos). Acho que gostei mesmo do livro por causa da última frase: “E em algum lugar, um relógio batia meia-noite”. Hoje em dia minhas leituras são mais acadêmicas, o que me enche de raiva. Tenho medo de perder a habilidade e a alegria que eu tinha para leituras voltadas para o prazer. Na prosa, sempre li os clássicos brasileiros, principalmente o Machado de Assis, que me proporcionou muitas risadas na minha adolescência. Um dia descobri o Gabriel Garcia Marquez e me apaixonei totalmente. Os contemporâneos eu só encontrei na universidade. Quanto aos poetas, comecei a ler e fazer poesia por volta dos dez, onze anos. Amava Álvares de Azevedo, e ainda amo. Fiquei sabendo que existia um tal de Vinícius de Moraes quando encontrei um livro velho e surrado lá em casa, sem capa e sem nome. Lia sempre e adorava. Fui descobrir que era ele, anos depois, quando vi o Soneto de Separação em um livro didático. Conheci Baudelaire, Rimbaud, Oscar Wilde, e vários outros estrangeiros em quem eu me espelhei naquela época. Hoje tenho Ferreira Gullar como um dos meus preferidos.
JIVM – Para uma garota que escreve versos e mora no Oeste, a mais de mil quilômetros da capital, qual o papel que a internet desempenha? E na sua criação poética, como é que ela participa?
JS – A internet foi uma válvula de escape. Nunca tive vontade de mostrar meus poemas para pessoas conhecidas. Um dia, há alguns anos, fiz um blog e comecei a postar. Foi um alívio, como se eu estivesse tirando um peso das costas. O divertido é que sempre que via alguém escrevendo, sem querer mostrar, eu incentivava ao máximo para que espalhasse pelos quatro cantos sua obra. Hipócrita, não? Essa história de internet lavou minha consciência, pois eu podia publicar sem que pessoas conhecidas vissem meus poemas. Não foi bem isso o que aconteceu, mas tudo bem. Sendo um veículo rápido de informações, pude entrar em contato com novos poetas e perceber novas estéticas, o que renovou totalmente a minha forma de criar. Deus, eu tenho sonetos metrificados! Ainda não sei como eu conseguia fazer isso. Antes eu trabalhava mais; hoje é mais rápido, mais intuitivo. E antes eu não trabalhava, tendo, portanto, tempo para ficar horas num único poema.
JIVM – O fato de ser estudante do curso de Letras tem proporcionado a você um conhecimento mais profundo da literatura brasileira, sobretudo da contemporânea, ou esses assuntos são vistos apenas de passagem? Quais benefícios o curso de letras trouxe para a poeta Janara Soares?
JS – Eu caí no curso de Letras por acaso. Sempre quis fazer História e jamais tinha pensado em estudar Literatura. Para mim, Literatura era pra ser lida, e só. Entrei porque na época em que fiz o vestibular não havia curso de História e descobri que em Letras ensinavam Latim, que eu já estudava sozinha. Meu curso, na verdade, é mais rico nas disciplinas de Lingüística e de Educação. A Literatura não é estudada tão intensamente como eu esperava quando entrei no curso, mas quando acontece, é bastante gratificante. Conheci poetas que nunca teria conhecido se não estivesse na academia e, além disso, descobri as relações entre Linuguística e Literatura, o que me rendeu leituras imensamente ricas. As disciplinas relacionadas à Crítica Literária tiraram minha inocência na leitura de poemas e da Literatura em geral. Hoje tenho mais capacidade de inferir no texto, de ter uma posição quanto aquilo que eu leio. Não sei se isso é muito bom. Tenho agora mais bagagem para discernir as coisas, mas antes era mais mágico, era mais poesia.
JIVM – O que você anda fazendo? Já tem planos para publicação do primeiro livro? E o que mais?
JS – Estou terminando meu curso e planejando minha monografia. Quero fazer um trabalho sobre a relação do espaço, do território e da paisagem na criação literária, especificamente aqui, no Oeste Baiano. Quando sair daqui, pretendo fazer o mestrado imediatamente. Não quero ficar parada. Quanto à publicação de um livro, eu nunca pensei nisso, mas idéias estão começando a aparecer. Na verdade, minha primeira idéia de publicação seria uma antologia com os poetas levantados na minha monografia, com o intuito de promover a Literatura de nossa terra. Livro meu, mesmo, só estou começando a pensar agora.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sem título

A chuva escurece o sol
enquanto delimito minha eternidade.
Olho seu retrato em segredo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O Grande Rio

Minha porta está fechada.

Enquanto isso corre o boato
dos corpos sem coração.

Foram encontrados ontem
- às margens do grande rio –
molhados por tanto pranto
que as mulheres carpideiras
não se puseram a chorar.
Em cada peito um buraco
– como quando se planta uma árvore –
cada um, ali, perdido,
pedindo alguma semente.
Os joelhos estavam inchados,
das mãos corriam sangue e cera,
os pés calejados dormiam
o sono de toda uma vida.

Dizem nos botecos, à meia luz,
que há muito os corações já não existiam.
as pobres vítimas não eram tão pobres
e a morte sabe o que faz.

Dizem, como sempre, dizem
que os corações evaporaram,
não havia mais lugar ali
para um coração existir.

Dizem, como sempre acontece
quando aparece alguma notícia,
dizem que cada corpo trazia em si
um pouquinho do nada do inferno.
Que qualquer pedaço de vazio
é como uma maçã podre no cesto.

Minha porta está fechada.
Não quero ser encontrada
às margens do grande rio.

De repente os meus sábados são sagrados

De repente os meus sábados são sagrados
e é uma odisséia deixar a cama.
Os pensamentos não são sublimes
mas as almas levitam ares novos.

Em cada manhã as pernas se beijam;
o chão é mais que uma opção.
Se o teto se tornar branco
podemos inventar novas luzes.

Os fins são como os começos:
as risadas se repetem sempre;
sempre se repete o roteiro.
Mas há um quê de novidade.

A felicidade não é tão difícil.

domingo, 13 de junho de 2010

Século XXI

Máquinas de amar estão à solta!
Máquinas de amar estão à solta!
As vozes retumbantes voam livres
e o medo é o menor dos males.

Máquinas de amar estão à solta!
Máquinas de amar estão à solta!
Queima a inveja no fogo dos olhos
De quem esqueceu como se faz.

Máquinas de amar estão à solta!
Máquinas de amar estão à solta!
Mãos frias não são desculpa
para os toques não ofertados.

Máquinas de amar estão à solta!
Máquinas de amar estão à solta!
Vamos morrer numa fogueira
de calor não declarado.

Máquinas de amar estão à solta?
Máquinas de amar estão à solta...

Precisamos reinventar o amor.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Skylab - Meu Pai

Fenomenal Skylab.

MEU PAI

Eu dei à luz meu pai
no final de uma noite tenebrosa
depois de longas contrações.
O rebento nasceu aos gritos.

Eu não tive dúvidas: era meu pai,
o estrangeiro sem alma,
de onde vim e pra onde voltarei.
Era ele mesmo: a cloaca do mundo,

onde muitos garotos se iniciaram
e muitas meninas também.
Meu pai nasceu com setenta kilos

e foi motivo de júbilo para família.
Foi batizado com o nome de Silvio
e morreu sem eu ter completado a maioridade.

SKYLAB/MAIO-2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Alvorecer

Os lábios que não beijam mãos são mortos.
Os lábios que não noticiam o amor
não são lábios.
As vozes que não cantam louvores
a ouvidos que estão presentes
não são vozes.
Não são ouvidos aqueles que não escutaram
o grito dourado do sol lamber a cidade.

Todas as manhãs cantam os anus-pretos.
Todos eles voam em direção aos lábios
que beijam mãos e noticiam amor.
Não são ouvidos aqueles que não ouviram
o anu-preto cantar pela manhã.
Não são toques aqules que carecem de paixão.

(mas paixão vermelha, que queima toda uma vida
e em uma manhã se pacifica, se completa)

Todas as manhãs seriam completas
se as paixões apenas se olhassem.

Por que são olhos aqueles que olham.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Escolas Municipais que não são Escolas

Venho tratar hoje de um assunto importantíssimo, mas pouco debatido: a educação no município de Barreiras. Tenho isso como algo importante, inicialmente, pelo próprio valor social e vital da educação, e, em segundo lugar, por trabalhar como assistente administrativa em uma escola da zona rural, estando, pois, lidando constantemente com as dificuldades dessa Unidade de Ensino.

Nossa escola está situada no Povoado de Baraúna, a poucos quilômetros da sede, na estrada para São Desidério. É a única instituição pública de ensino, e abrange não só crianças, jovens e adultos do povoado, mas também de outras localidades rurais dos arredores. Por ser zona rural, já possui o estigma de inferioridade em relação à sede; é fato que não possuímos as várias oportunidades que a zona urbana oferece, mas, se isso acontece, é por falta de iniciativa da administração da cidade.

A educação, no entanto, não deve ser medida como superior ou inferior: todos têm direito à educação igualitária e de qualidade. Mas o que vemos em nossa escola, a começar pelo essencial, não tem nada a ver com isso. A estrutura da escola simplesmente não tem condições de abrigar qualquer atividade que se tencione fazer. O telhado danificado faz com que as águas da chuva alaguem a escola; os banheiros estão inutilizáveis; a maiora das salas não possui energia; não há biblioteca e o acervo da escola é constantemente danificado pelas condições precárias de alojamento; apesar de estarmos na era da informação, há apenas um computador, e sem internet, ao qual os alunos sequer têm acesso; ainda se usa mimiógrafo; não há merendeira à noite, e os alunos que chegam do trabalho muitas vezes sem jantar passam fome até o horário de ir embora, isso quando não evadem; os quadros são de giz, o que ocasiona alergias, problemas respiratórios e de pele, tanto nos professores quanto nos alunos que aspiram o pó. Uma reforma foi prometida há tempos, mas até hoje não vemos qualquer sinal dela, e a direção da escola faz malabarismos incríveis para manter a escola funcionando com o mínimo de dignidade.

Esses são apenas alguns dos vários problemas da escola. E se formos colocar a questão num âmbito mais abrangente, deveríamos falar do povoado como um todo. Não há uma parada de ônibus na pista ou iluminação decente. As pessoas que dependem do transporte público passam risco de vida todas as noites na escuridão da estrada. Os ônibus que circulam entre a zona rural e a sede do município envergonham qualquer cidadão barreirense. Os buracos na entrada do povoado, que acumulam água das chuvas, fazem até os motoristas dos ônibus passarem sufoco na direção.

Tenho em mente que colocar flores na cidade ou fazer festas é algo menos importante do que sanar as dificuldades reais dos munícipes. Uma administração não deve se pautar em eventos para enaltecer a imagem do administrador: problemas concretos estão acontecendo todos os dias em Barreiras. Pessoas passam fome, não possuem moradia, morrem por falta de atendimento médico de qualidade, têm uma educação que simplesmente não é educação.

Enfim, as crianças, os jovens e os adultos do Povoado de Baraúna possuem apenas essa escola para terem acesso à educação. Deixá-la de lado é a pior barbaridade que se pode fazer com eles. A escola, na situação em que se encontra, é uma afronta à dignidade dos moradores desse local.

Venho pedir não a atenção dos governantes, pois eles conhecem a situação. Não é possível que ainda aleguem que não saibam de tais problemas. Venho pedir a atenção dos munícipes, dos moradores dos povoados, dos cidadãos barreirenses para cobrar medidas urgentes dos governantes. Por incrível que pareça, no século em que estamos, depois de tantos avanços sociais, cidadãos e professores ainda têm MEDO de se manifestar.

Não precisamos dessa agressão e dominação política. Precisamos de boas escolas, de condições dignas de vida, e é por isso que devemos lutar.
 

Sonho

Sonhava que a luz não existia
e as cores eram cores por si só.
Podia tocá-las! E elas, densas,
Se desfaziam como algodão doce
lentamente lambido,
lentamente salivado.

Nesse sonho o azul royal
– antes tão aristocrata –
era liberto para amar
todos os vermelhos dos cardeais.
E a Inquisição não se importava.

Os seios não eram rosas, os seios;
eram girassóis dourados.
Cansados da delicadeza do veludo,
percorreram outros campos.
Mais ainda floridos, os seios.

Os sons tomaram formas
E meus olhos se alegraram:
como o Gato, o Dó maior me sorria.
Era vermelho intenso o Si menor
e voava feito águia.

E quando Morpheus resolveu me deixar
espantado pela chegada de Aurora
restou um cobertor no chão
e um rosto no espelho que eu quase desconhecia.
Voltei para a cama. A vida podia esperar.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Formigas no açucareiro - por FN

 Roubado descaradamente da Churrascaria Almaminhadealcatra

   
Formigas no açucareiro

“É preciso dançar conforme a música”.
Conhece alguma frase mais castradora do que essa?
Tem outras que chegam perto, tipo: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, muito repetida e cada vez mais obedecida. 
Tem essa também: “Nadou, nadou... e morreu na praia”, que além de fúnebre sugere o absurdo de que o sujeito ao cair no mar devia logo se afogar, poupando suas energias, sabe-se pra quê.
E aquela expressão “dar murro em ponta de faca”? Vai pelo mesmo caminho da resignação, da subserviência.
O fato é que todas elas estão bem sedimentadas em nossas cabeças de cordeirinhos. Pertencem à mesma linhagem da prepotência por um lado; do conformismo por outro. No fundo, fazem um elogio a quem sabe viver das migalhas que a vida oferece, em dólares, euros, cartões de crédito, todos os seus desejos em até dez vezes sem acréscimo. Não há como escapar. De um jeito ou de outro, cairemos todos na armadilha.

Agora, só pra não deixar o fatalismo exibir um sorriso triunfal, deixando à mostra seus dentes podres, imagine inverter o conteúdo da primeira frase e propor algo como: “Indispensável NÃO dançar conforme a música”. 
Pense na idéia tomando corpo, sorrateiramente se espalhando, contagiando mentes livres, corações abertos. Os loucos contestadores abrindo caminho por entre os escombros da mesmice, trombando com o “razoável”.
Está mais do que na hora de deflagrar uma dessas revoltas natimortas, que escarnecem do bom senso e recusam lembranças articuladas, narrativas lineares. Fragmentos que fazem explodir a pergunta: “Que banda é essa que toca pra gente dançar conforme a música?”
Escapar das grades que nos cercam; fazer algo, que não seja o “criar”, com outras palavras e cenas, o que há muito já foi criado e recriado: a revolta da fuga.
Formigas no açucareiro? De lá não sairão por vontade própria. 

sexta-feira, 19 de março de 2010

Garganta


Eu preciso de um fósforo ou isqueiro,
quero algo qualquer que faça fogo.
Há um cigarro amargo a ser queimado,
há uma fumaça densa pra engolir.

Há um cigarro amargo pra acender.
Quero a seda mais branca que houver
se enrolando na palha da Angústia:
minha saliva selando seu destino.

Em minha frente existe uma parede
Rachaduras de um outro terremoto
E o lodo de chuvas já choradas
É a pintura que vejo em meu limite.

A fumaça chega ao muro e pára:
Não há céu para onde vá subir.
Uma bola cinzenta escapa à boca
É a Angústia queimada, sem porvir.

Luta e Resistência em Barreiras

Esse texto foi publicado em "Idéias são à prova de bala", blog da Paula Vielmo.

QUARTA-FEIRA, 10 DE MARÇO 

Saindo do trabalho e indo almoçar, me deparei com um manifesto de rua em frente a Prefeitura Municipal, organizado e protagonizado por estudantes e professores/as do campus avançado da UFBA em Barreiras. A reivindicação: acesso ao campus da Prainha, que estava impossibilitado devido às chuvas que tornaram a estrada em lama pura e a ponte que "balança mas não caí", não se sabe até quando.

Na manifestação - pelo que soube - não planejada antecipadamente, mas dirigida pela extrapolação da revolta com o descaso da administração municipal, provocou um grande impacto naquele dia. O trânsito estava bloqueado e a polícia chegou para desbloquear. Os/as manifestantes não saíram e o confronto foi direto. Os policiais presentes agrediram estudantes e prenderam um professor. Isso tudo enquanto uma comissão conversava no gabinete da prefeita, sem a presença dela e com a equipe sem autonomia que ela dirige.

Corre-corre e resistência. Grande resistência protagonizada sobretudo pela juventude ousada lá presente. O professor no carro, num calor insuportável, desmaiou. E mais uma vez vi a soberania descabida que um mandato popular tem sobre o povo.

E eu também estava lá, no sol quente como tantos/as, torrando no meu horário de almoço, reforçando os gritos de ordem e empolgada pela ação ufbaniana.

A manifestação legítima teve impacto porque foi no centro e parou o trânsito. E foi necessário parar, porque se as pessoas não são prejudicadas um pouco no seu individualismo, não percebem. Estamos numa sociedade que "se não é comigo, não é da minha conta". A causa levantada pela UFBA de acesso é de todo povo de Barreiras, antiga inclusive, mas que só agora torná-se visivel: pela implantação do campus e pela mobilização da comunidade acadêmica ufbaniana.

No entanto, a ação da polícia, foi extremamente truculenta! A polícia estava desnorteada, justamente porque não tem formação para dialogar com os movimentos sociais ou reivindicatórios. A formação da polícia é justamente para fazer o que fez: reprimir! Não é a toa que é chamada de "Aparelho de Repressão do Estado". O que me deixa triste é o fato de que a polícia, é mais do que aparelho de repressão, ela é classe trabalhadora e também é oprimida e foi duro ver oprimidos agredindo oprimidos. Não estou defendendo a ação truculenta da polícia, mas refletindo sobre a função dela e entendendo que é composta por seres humanos que estão do mesmo lado que nós. Foi revoltante ver o professor até então desconhecido e recém-chegada a Barreiras ser jogado, com o doutorado e tudo dentro do camburão. E naquele instante não importava ser Doutor, o que estava em questão era que ele fazia parte de quem causava a desordem e ameaçava a "autoridade" da polícia enquanto instituição repressora.

Fiquei muito emocionada com aquela manifestação, com o impacto que causou. Acredito que ela venha se somar a todas as que já existiram antes (e sim, povo passivo de Barreiras, já existiram outras) e de maneira lenta, sacudir a estrutura e cultura do nosso povo, permitindo que tais manifestos se tornem algo mais frequente que as conversas de gabinete e que a cultura do medo que impera por estas bandas seja aos poucos destruída e substituída pela cultura da organização popular.

 (Quem quiser ver o vídeo, está aqui.)

Liberdade

Ela se encaixa em todos os delitos.
Em todas as culpas ela é a primeira
das primeiras a não pedir perdão.

Ela não se esconde dos dedos rígidos
apontados por mãos envelhecidas,
por rugas indecentes, apocalípticas.

Ela se destoa de todas as canções
e não protege os ouvidos ásperos
das litanias cantadas ao inferno.

Por milhares de anos ela é
e sua existência amarrotada
descumpre todos os ritos,
gera todos os conflitos,
altera todos os canais.

Ela é – simples. E tropeça nos pés
dos que se levantam contra ela
e, por vezes, nos próprios pés.

Ela? Existe.
E as folhas das mangueiras, no verão,
Dançam apenas para ela.

Oficina de Cinema Um Conto e Um Roteiro

O Colegiado do curso de Letras, do Campus IX da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Barreiras, promove a oficina de cinema Um Conto e um Roteiro, nos dias 19, 20 e 21 de março.

A oficina, ministrada pela professora de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Cristina Fonseca, tem como objetivo promover a leitura intersemiótica das linguagens literária, televisiva e cinematográfica.

Essa é uma oportunidade ímpar de conhecer um pouco mais sobre a produção de roteiros e adaptação de contos. Além disso, esse curso é ministrado por uma profissional extremamente gabaritada”, observa a professora Maria Aparecida Guimarães, coordenadora do colegiado.

Estão sendo oferecidas 50 vagas voltadas para estudantes dos cursos de Letras, Comunicação Social e áreas afins. O investimento é de R$ 100 e as inscrições podem ser realizadas até o dia 20 de março, no colegiado do curso.

“A iniciativa de trazer a ação para Barreiras foi da professora Nelma Santos. Ela fez a oficina em São Paulo e adorou. A UNEB não só aprovou como colaborou, custeando as passagens aéreas da professora Cristina”, conta Aparecida.

As atividades acontecerão na sexta-feira (dia 19) das 19h às 23h, e no sábado e domingo (dias 20 e 21), das 8h às 12h e das 14 às 18h. Os dois primeiros dias da oficina serão na sala de vídeo do Departamento de Ciências Humanas (DCH) e o último, na sede da Cooperativa Educacional de Barreiras (Copebe), que apoia a ação.

Informações: Colegiado do curso de Letras/Campus IX - Tel.: (77) 3612-6744.
 
Notícia no Portal Uneb
 

Miguel


Ele chega trajando uma camisa parda
Caminhando com a paciência dos séculos
Cabelo caído numa face sem cor
Escondendo em seu olho os fins dos milênios.

Sem armadura, espada ou cota de malha
Sentou ao meu lado, forçando um sorriso.
Pediu uma cerveja, meio descontente.
No sereno da mesa desenhou um círculo.

– Cansei de Guerras, – me disse o arcanjo,
– muito trabalho, o pagamento é pouco.
Já vi de tudo. Só falta ser humano.

– E a glória? – Depende do ângulo.
Sorriu de novo, pediu outra cadeira...
Encheu mais um copo. Jorge vem chegando.

Balada das Sete Horas

Quando eu pensava nos relógios
– passavam-se as horas –
num sofá de algum lugar:
casa café cabaré
os relógios me sorriam canções
tão distantes e rígidas...
Ás vezes eu podia tocá-las!
Um Danúbio Azul,
um Lago dos Cisnes
ou apenas sinos opacos
graves no seu badalar.

Passavam-se as horas.
Os sofás se iam.
As canções – eternas?
Não. Havia outras.
Mas os relógios...
Os relógios e eu.
Eu, sempre pensando neles.
Eles, sempre sorrindo canções.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Carnaval Cultural Barreirense




Descobri nesse ano que amo carnaval. Não o carnaval ópio, hipnótico, adestrador.

Tive a honra de, pela primeira vez, participar do bloco Netos de Momo, um dos mais tradicionais de Barreiras. Reúne há 28 anos pessoas de todas as idades e promove a festa mais pacífica e divertida que já vi na minha curta vida. O tema desse ano foi Navegação – Embarque nessa folia, e o palco da Landulfo Alves teve até uma carranca feita pelo artista Rondinelle. O Bloco fez a concentração na casa de Hamiltom Pamplona, como de costume, e também paradas em 12 casas que serviam comida e bebida gratuita para os foliões – geralmente caldo, pra agüentar o tranco. Percorremos as ruas do Centro Histórico e finalizamos na Praça Landulfo Alves, com a banda Angical tocando as famosas marchinhas que embalam nossos carnavais há décadas, comandada pelo Maestro Ló. O clima de amizade, de respeito e o ar de tradição (vá lá, tivemos algumas inovações nas fantasias) me fizeram amar ainda mais a cidade de Barreiras e me sentir mais filha dessa terra. O Bloco Netos de Momo reúne as famílias mais antigas, e como sempre escutei mamãe falando nomes e mais nomes, histórias e mais histórias de quando morava lá, foi como ver a ilustração de um livro que me fora contado por toda a vida. Uma delícia.

 




O carnaval começou com o cortejo de barcos conduzindo o Rei Momo, a Rainha e as Princesas pelo Rio Grande até a Landulfo Alves, lembrando das embarcações que aportavam no cais no início de Barreiras. Os blocos tradicionais começaram a desfilar a partir daí: Idade Viva, Maluco Beleza, Bloco dos Bonecões (ótimos!!). Nos outros dias vimos também o Bloco da Rôla, Nega Maluca, além das apresentações do grupo infantil Maria Pimenta, o Boi Jaú de Angical, Maculelê e Karatê. Hoje estarão passando os blocos Mordomia, as Baianas, as Panteras, as Casadas, Nega Maluca e novamente os Bonecões, que animou todos os dias do Carnaval Cultural.

Ufa. Até cansei.



Posso reclamar de muita coisa aqui de Barreiras, mas esse Carnaval superou todas as minhas expectativas. Perfeito.

Aqui vai a única foto que me lembro ter tirado nesse carnaval. Pelo menos é a única que chegou até minhas mãos. Não fui fantasiada, mas meu querido amigo Diego disse que só faltou o chapéu pra ficar igual ao Willy Wonka. 



Agora é esperar 2011, com ansiedade e desejo. Aceito idéias para as fantasias (a do Diego já está anotada).

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Randesmar - O Bacieiro dos Rios


Randesmar nasceu no dia 30 de março de 1963, em Barreiras, um ano antes do Golpe Militar.  Filho de Thomaz Alves da Silva e Dona Normezina Veira da Silva, Randes desde cedo demonstrou o talento com o desenho e a música. É criação dele o desenho da bandeira de Barreiras: faz alusão à bandeira da Bahia com as cores vermelha, azul e branca; traz no centro um triângulo amarelo que traz a figura de um grão de soja e um barco com um pescador; acima da figura, o lema PRESERVAR, TRABALHAR E COLHER.

Seu trabalho é voltado para temas ecológicos, onde vemos o cerrado retratado e, principamente, os rios de Barreiras. Também encontramos temas sociais, como o quadro "A mulher e o homem em busca dos seus direitos". Destaque para a coleção "Bacieiro das Águas", feita com bacias de alumínio retorcidas encontradas na beira do rio. Abaixo segue alguns de seus trabalhos:

 
Equilíbrio do Ecossistema: dois peixes saltando para
comer o caju.  

Técnica: bacia de alumínio retorcida, encontrada na beira do rio.
Coleção Bacieiro das Águas. 2006.

 

  

  
Gamela

 
A mulher e o homem em busca dos seus direitos

 
Rosa Luxemburgo


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Exposição de Artes plásticas do pintor Inácio Cordeiro está sendo realizado no Palácio das Artes




Texto Vera Lúcia Rocha | Foto Ronaldo Carvalho - Fonte www.barreiras.ba.gov.br


Com o objetivo de resgatar e valorizar os artistas da região, a prefeitura de Barreiras, através do departamento de Cultura está realizando no Palácio das Artes, desde o dia 14, uma exposição de Artes Plásticas do artista Inácio Cordeiro. O projeto de exposição se estenderá até o final do mês de janeiro, com horário de visita das 8 às 22h.

“Além de valorizar nossos artistas, a exposição contribuirá para o movimento artístico de Barreiras, buscando sua identidade no âmbito local, estadual e nacional. Inácio é uma das pessoas que está marcando o Oeste baiano com sua determinação artística e seu potencial” explicou o coordenador do departamento de cultura, João Bosco Fernandes.

O evento busca também oportunizar e repensar o mundo através da arte, aprofundando o trabalho e as linguagens artísticas e a fornecer subsídios para a compreensão do papel da arte e da cultura na sociedade atual.

BIOGRAFIA - Nascido na cidade de São Desidério no Oeste da Bahia, distante 890 Km de Salvador, Inácio Cordeiro mudou para Goiânia no início da década de 80, onde trabalhou e aprimorou sua veia artística tornando-se pintor publicitário, ao mesmo tempo em que observava diretamente artistas plásticos consagrados como Omar Souto, Antônio Poteiro e Runy Silva (a sua grande incentivadora).

Um jovem artista, amadurecido pelas contingências da vida, já passou por várias fases, pois suas obras ratificam o seu amor por São Desidério e Barreiras: o Rio, o Cais, o Centro Cultural, a Igreja do Nosso Senhor São João Batista, o Velho Mercado com som do Bar do Vieirinha, algumas telas retratam o lado Boêmio do artista: Copo, Taça, Garrafa, Violão, Mesa de Bar, Quase sempre tendo como plano de fundo a imagem feminina, reverenciando as musas reais e imaginárias que povoam o nosso imaginário. A natureza também se sente homenageada, pois algumas em telas, lá estão os rios, cachoeiras, grutas e pássaros da região.

Gênese - José Inácio Vieira de Melo

Esse é o poema Gênese, de José Inácio Vieira de Melo , recitado pelo ator alagoano Chico de Assis, com ilustrações do artista plástico baiano Juraci Dórea e sonoplastia de Wagner Lima. A edição de vídeo feita por Vitor Nascimento Sá, poeta e recitador do Grupo Concriz, de Maracá. Esse poema faz parte do livro "A Infância do Centauro", que tenho autografado (nananá-ná!!!). Aproveitem!


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Jovens Escritores - Ary Santos

A vida boêmia nos permite uma gama de sensações e conhecimentos incríveis. Horário para voltar inexiste; um violão e boa música sao fatores necessários para uma boa noite de sono; boas companhias sempre aparecem. Boas companhias.
E caminhando com esse povo boêmio foi que encontrei Ary Santos, poeta de Ibotirama. Tive a honra de escutá-lo recitando suas poesias, e para mostrar a beleza de suas palavras e seu talento, aqui vai um aperitivo de sua obra.



Descaminho do século

Cacos partidos de nada,
Fixo estilhaço na estrada,
Pontas de telha quebrada,
Beijo de boca calada,
Caminhos trilhados na madrugada,
Trilha rompida e parada,
Eco rasgado em revoada,
Tacos batidos no nada,
Risco estraçalhado na estrada,
Ponto de partida falada,
Desejo de lua calada,
Descaminho na madrugada,
Ilha perdida e parada,
Século louco em revoada,
Século pouco em disparada.

Reconquista


Uma luz que se acende,
Um olhar que intriga,
Um desejo que reage,
Uma vontade que se cala,
Uma mão que se desliza,
Um sussurro que desmancha,
Um arrepio que domina,
Um abraço que convida,
 
Um beijo que seduz, 
Uma paixão que se atrai!


Uma luz que apaga,
Um olhar que se perde,
Um desejo que devora,
Uma vontade que ataca,
Uma mão que se perde,
Um sussurro que excita,
Um arrepio que declara,
Um abraço que contagia,
Um beijo que sela,
Uma paixão que se refaz!


O primeiro texto foi publicado na Antologia de Poetas Brasileiros, volume 53, e o segundo texto foi publicado na antologia "Os mais belos poemas de amor", Edição de 2009.

Clarice Lispector em sua última entrevista

Essa é a última entrevista com Clarice Lispector dada ao jornalista Junio Lerner para o programa Panorama em 1977, sendo publicada posteriormente na revista Shalom, nº 296, v.2, 1992.

Intrudução:

De minha sala na redação de "Panorama" até o saguão dos estúdios tenho que percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada... Talvez falar sobre A paixão segundo G.H... Ou quem sabe sobre A maçã no escuro e Perto do coração selvagem... Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio para entrevistá-la. São quatro de quinze da tarde e disponho de apenas meia hora... às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o Estúdio B... Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista... Eu odeio a TV brasileira!... Só meia hora para ouvir Clarice... O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha... Olho o relógio, não cosigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio. Estou desconcertado, atinjo o saguão dos estúdios e a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio do vai-vem dos cenários desmontados, de diversos equpamentos e de técnicos que falam alto, no meio de um grande alvoroço.

Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a um semelhante... Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli (ela não sabe que eu sei, sua melhor amiga), entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segua apenas um maço de Hollywood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados. Clarice me olha, o setor técnico envia pelos alto-falantes o sinal agudo de mil ciclos. o olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, chega Miriam, a estagiária do programa e fica encolhida e calada., o calor rstá ficando insuportável e o ar-condicionado não está ajustado, são apenas quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar uma questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do terceiro mundo que me possibilita estar agora frente a frente com ela, Clarice me olha melindrosa, assustada e seu olhar me pede para que a tranquilize...

"OK, Juliooooo... tudo pronto", a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda equipe para sair, cabo-man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço, Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás, peço silêncio total e depois de uns dez segundos ecoa um "gravandoooo"...

Silêncio. Olga e Mirian na parte escura de um dos lados, Moacir escondido atrás da câmera, eu me posiciono ao lado da câmera para não aparecer, a fim de que o público não descubra minha impiedosa cara-de-pau e... Clarice. Solitária, no centro do estúdio...Não conversamos antes e disponho apenasde 23 minutos... Estou completamente desconcertado, fico um minuto em silêncio fitando Clarice. Estou oco, vazio, não sei o que dizer... Clarice me olha curiosa mas vigilante, defendida... Sou o senhor do castelo e - prepotente - guardo comigo a chave desta prisão... Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.

Não sabes, Clarice... Te conheci agora porém te conheço há muito tempo... Te amo, te respeito e no entanto agora começo a te invadir. A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista. (pequena biografia) A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Quero mergulhar, por vezes consigo... Clarice está nua, não perdão, Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar mas logo escapa, e volta, e me pega, e me sugere o longe o não-dizível, depois se cala... E quando nada mais espero, ela volta a falar... Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.

Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: "Chega!" Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado "repórter" e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta mas de novo me atrai, suas pernas se cruzam e se descruzam sem parar e telegrafam que de repente ela poderá se levantar e partir.

Entrevista:





terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Gatos Pardos



Escrevi esse texto há muito tempo. Encontrei-o relendo escritos antigos e achei por bem colocá-lo aqui...


Era fascinada pela rua. Pessoas tão diferentes, coisas tão diferentes, diferentes movimentos. Clap clap dos sapatos das mulheres, correria de crianças mal-vestidas, homens mal-humorados sorrindo no celular. Cada ser que passava em sua frente era um novo mundo, quase uma América de tão complexo. Mas era fulgaz; não se teorizavam, não se desmembravam para mostrar sua essência, não contavam sua história, não diziam “oi”. Apenas corriam de um lado pro outro, cada qual na sua bolha imaginária. Mas ela era menina boa, inteligente, cheia de imaginação.

Sentava na Praça das Corujas (porque Praça das Corujas, se todas as faixas penduradas falam Praça Castro Alves?) e criava uma história para cada passante. Havia um velhinho, muito bonitinho e tradicional, do tipo apoiado numa bengala, camisa branca fechada até em cima, sandália de couro aberta e costas em arco. Ele caminhava sempre na praça. Ela imaginava coisas exorbitantes sobre o velhinho: seria um militante vermelho, igual dos jornais antigos do pai dela, que conhecia homens fugidos da polícia e teria apanhado nas delegacias? Seria muito triste, por que agora ele caminha e se senta sozinho numa das janelas de vidro do Palácio das Artes. E se fosse tudo isso, deveria ter uma dezena de pessoas querendo saber como foi sua aventura. Mas não há ninguém.

Havia também um senhor que parecia com o pai dela quando não estava trabalhando: usava óculos redondos, tinha o cabelo meio cinza, meio preto, numa cor que ela não sabia definir; usava camisas de manga, calça cortada no alfaiate e sapatos sempre marrons. Marrom é uma cor estranha. Por que será que ele sempre usava sapatos marrons? Como ele sentava sempre no mesmo banco, com um braço estendido no encosto, pernas cruzadas, ela imaginou que talvez esperasse alguém. Uma dama com quem ele teria se correspondido por vários anos, até resolverem se encontrar. Mas se havia uma dama, porque ele estava sozinho? Talvez ela tenha morrido antes de chegar no dia marcado e ele não soubesse. Por isso voltava sempre à mesma hora, na esperança que ela chegasse, como combinado. Era uma história triste para inventar para alguém, mas era a única coisa que ela imaginava para ele.

Gostava dos grupos de homens que jogavam dados. Eram barulhentos, e apostavam dinheiro (um ou dois reais). Ela nunca entendeu o jogo de dados, apesar de observar bem. Eram vários tipos de homens: negros, brancos, bem-vestidos, esfarrapados... Era engraçado vê-los ali, tão diferentes e tão unidos! Não era igual na empresa do pai, quando ia lá almoçar. Havia um restaurante embaixo, e numa mesa sentava só quem tinha terno e na outra mesa sentava os que usavam macacão. Era triste, as pessoas olhavam de cabeça baixa enquanto outras falavam no celular e tentavam comer ao mesmo tempo. Ela preferia a rua, a praça. Todo mundo ficava junto e fazia barulho.

Tanta gente passava pela rua! Tanta coisa acontecia! E ela continuava caminhando, observando como eram as pessoas, as coisas, o tempo, imaginando vidas. E sem saber, fazia o que muitos perderam a capacidade de fazer: olhar para o outro e aceitá-lo. Porque na medida em que vamos crescendo, nos ensinam a negar as pessoas. Ela se sentia triste algumas vezes porque só ela conseguia ver certas coisas que os outros não conseguiam. Enquanto ela via o sorriso grande e verdadeiro, os outros viam deboche e cinismo. Onde ela via beleza e contraste, os outros viam mal-gosto. Onde ela via vida nova, os outros viam morte. Mas não importava. Era só caminhar um pouco e começar a imaginar, que até a rabugice alheia se tornava interessante.

Vinicius Azzolin Lena - Nova Ortografia

Fuçando a Internet atrás de informações dos poetas de nossa terra, encontro esse poema de Vinicius Azzolin Lena, escrito de acordo com a nova ortografia. Aliás, o nome é este. Sinto-me como ele...rs


Nova Ortografia

Devo aguentar esta pinoia
pra não parecer debiloide?
E mesmo que sinta enjoo
não entrarei em paranoia?

Pra não bancar o anti-histórico
entrarei em autoescola
farei autoapendizagem.
Ideia que muito me amola.

E num esforço sobre-humano
traçarei uma semirreta.
E com força de um vice-rei
um anti-ibérico então serei
Tranquilo, bilíngue e... poeta?


Vinicius Azzolin Lena
Barreiras-BA, 09-01-2009




Jornalista - Editor do jornal Nova Fronteira de Barreiras BA. Membro efetivo da Academia Barreirense de Letras. Livros publicados: "Traçando Barreiras" (Histórica). No prelo: "Pequenas Histórias" - Contos, e "Reflexos" (Poesias)

A primeira edição de Alice no Espelho é vendida por US$115 mil

LOS ANGELES (Reuters) - A primeira edição do clássico de Lewis Carroll "Alice no Espelho", dedicada à verdadeira Alice que inspirou a história, foi vendida em um leilão nos Estados Unidos por 115 mil dólares, disseram os leiloeiros.



O livro, a sequência de "Alice no País das Maravilhas", foi publicado em 1871.

 Em 1862, quando tinha 10 anos de idade, Alice Liddell fez um piquenique com seu vizinho, o matemático de Oxford Charles Dodgson, que escrevia sob o pseudônimo literário de Lewis Carroll. Este contou a ela uma história que mais tarde se tornaria o clássico da literatura infantil "Alice no País das Maravilhas". Os dois romances foram inspirados em Alice Liddell. A edição vendida teria sido presenteada a ela por Carroll.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

Huxley X Orwell: é assim que se faz marketing para um livro.

Créditos de tradução (até o nono quadrinho...rsrsrs) e de descoberta para O paraíso é uma biblioteca.

Essa HQ foi baseada no livro "Amusing Ourselves for Death: public discurse in the age of show bussiness", de Neil Postman. No link onde está a HQ original também tem links para artigos do mesmo autor. Não li o livro de Neil Postman, nem sei se tem traduzido para o português, mas como leitora desses caras, achei a HQ muito interessante, e agora não tem jeito... Vou ter que procurar o livro do Neil Postman para ler.



 

 
 
 
 
 





 

A HQ Original se encontra aqui.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Trivialidades

O que mais me agrada na Literatura é que todos os temas são líricos. Todos mesmo.
Nada de certeza empírica na escolha de um objeto de estudo, nada de temas-tabus como nas discussões religiosas. A Literatura é A Literatura, e ela dá a liberdade à Linguagem de uma forma que nada mais, em nenhuma instituição civil ou relacionamento interpessoal, daria.
Conheci o blog de Daniel Ferreira, O Último Tango ao Virar da Esquina. Deparei-me com o seguinte texto:


Trivialidades

Quando deres por ti a cagar, num sábado soalheiro, todo nú e só com um par de meias para invalidar a frieza do chão, não te questiones muito. Se tiveres em conta que das mãos, muito antes do papel higiénico, que por razões óbvias não vais utilizar, lês uma entrevista a um nacionalista duvidoso como o Lawrence Durrell, e na aparelhagem, ao fundo, toca o best of dos Queen, perceberás, mais tarde, que o sentido de rídiculo, mais do que o de absurdo, é o caminho acertado para todo e qualquer cagalhão.


Delícia, não é? Aposto que você está pensando em si mesmo e no "sentido de ridículo" que o persegue...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Das profundezas, clamava...

De um poço escuro seu amor saía
E águas negras me banharam toda!
Em cada gesto, intensa dor sentia:
Pendiam cordas; inflamadas bodas.

Nas finas cordas um pescoço havia
E corvos loucos se espalhavam! Fogo...
Uma cabeça sem olhos descria
Que um anjo vinha devolver-lhe o corpo.

Amor assim é que eu conheci:
Pender na morte enquanto tu vivias...
Um paladar que agora não existe,

Uma imagem que eu não percebia.
Amor assim é que eu conheci...
Pender na morte enquanto tu vivias!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Me engana que eu gosto...

Em certos momentos, alguns minutos de silêncio são preciosos.

O cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, fez um comentário bastante peculiar sobre a tragédia no Haiti. Sem saber que estava sendo filmado, falou exatamente as palavras que transcrevo abaixo:

"A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f%&!#*...", disse o cônsul.

E imaginando que nós somos seres desprovidos de inteligência, o Consulado Geral do Haiti em São Paulo divulgou a seguinte nota:


NOTA OFICIAL DO CONSULADO GERAL DO HAITI EM SÃO PAULO

15 de janeiro de 2010

Diante do trágico acontecimento que atingiu o Haiti e que abalou o mundo, o Sr. cônsul George Samuel Antoine, no calor dos fatos e, principalmente por possuir centenas de parentes naquele país, sobre os quais tem poucas informações, sabendo que estão desaparecidos, provavelmente mortos, em comentário, teve seus dizeres interpretados de maneira deturpada.

Lamentamos profundamente o fato ocorrido, apresentado pelo SBT em 14 de janeiro, sendo que a divulgação de pequena parte da conversa levou a uma interpretação equivocada que ora se esclarece.

Vez que a frase expressada pelo senhor cônsul do Haiti em São Paulo, fazia parte do contexto de uma conversa que mantinha com um cidadão, que aparece na entrevista, o qual não é repórter e sim presidente do Conselho Do Instituto Americano De Pesquisa, Medicina E Saúde Pública, trata-se do Sr. Dr. Roberto Marton, e estava naquele momento disponibilizando uma ajuda humanitária, organizando recrutamento de voluntários profissionais da saúde.

O Dr. Roberto esteve naquele país meses atrás, com o próprio cônsul, assinando um protocolo de cooperação técnica na área de saúde da mulher. A dificuldade do Sr. cônsul na utilização da língua portuguesa, levou-o a um erro de expressão.

Na verdade, a intenção foi enfatizar que o trágico acontecimento no Haiti fez com que o mundo todo voltasse os olhos para os problemas do seu povo. Inclusive aqui no Brasil, possibilitando assim, maior ajuda humanitária para a reconstrução do país.

Nunca, teve a intenção de promoção pessoal, e sim, a intenção de difundir as dificuldades enfrentadas pela sua gente, que grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza, sempre em busca de maior ajuda mundial.

O Sr. cônsul, nasceu em Porto Príncipe, possui familiares de origem africana, seu bisavô Philippe Guerrier, da raça negra, foi presidente do Haiti (1844/45); sendo que o Sr. Antoine veio para o Brasil, e em 1975, foi nomeado cônsul.

Esclarece, que em nenhuma oportunidade tomou atitude racista, tendo se expressado, tão somente, que os povos de origem africana são sofredores em várias regiões do mundo. O cônsul jamais criticou a religião africana, mantendo grande respeito por todos os tipos de crenças pela própria característica do seu país.

O cônsul-geral do Haiti em São Paulo pede desculpas a quem de alguma maneira tenha se sentido ofendido.

Consulado Geral AD.H. do Haiti em São Paulo



Não é Literatura, mas penso que, nesses tempos em que discutimos tão avidamente sobre direitos humanos e respeito à diversidade cultural, isso é mais fantástico que Kafka e Poe juntos.




terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Praça


É interessante observar a praça pública. Interessante e estranho. Um lugar que é de todos e ao mesmo tempo de ninguém. Para este lugar convergem todos os habitantes da cidade, seja para um passeio maior ou para uma rápida passagem. Mas aqui, na cidade de Barreiras, a praça se tornou um ponto de referência, por ser a principal no centro.

Ao saírem da escola, os estudantes de todos os cantos passam por aqui. Se não têm necessidade de pegar um ônibus, vêm ao menos para se divertir, passar o tempo, encontrarem outros mais jovens. É o ponto de encontro de todas as diferenças. Vê-se um hippie a vender seus artefatos; encontra-se um empresário que aqui estacionou o carro; percebe-se crianças correndo ou pedalando; em outro canto há um idoso, de bengala na mão. O meio-dia na praça ferve de cabeças e pernas e braços e corações em busca do seu fazer. Cada qual com seu objetivo, muitos com metas comuns. Mas todos passam por aqui.

E á noite, então! Que histórias, que segredos, que miragens guarda a praça! Quantos beijos escondidos, quantas canções acompanhadas de violão, quantas lágrimas em colo de amigo, quantos gemidos abafados! Aqui tudo se passa, tudo se desenrola, e no fim é apenas mais um acorde da mesma canção.

São pólos extremos de um único mundo, a convivência da grandeza e do vil, do privilégio e do abandono, do querer e do poder. Tudo se encontra na praça pública.

Não moro em Barreiras, mas essa praça faz parte da minha vida desde quando era Praça das Corujas. Assim que passei a frequentar Barreiras sem a família, por conta dos estudos, aos quatorze anos, comecei a ver o lado público da cidade. Obrigatoriamente eu deveria passar pela praça.

A cidade é um misto de etnias, cores, formas, ideais, posições sociais, de conceitos. Mas na praça... Não sei que efeito nivelador há aqui. Todos se tornam passantes, e só. O misto acaba se unificando e solidificando numa única característica: aqui, somos todos passantes.

E se porventura as minhas primaveras me permitirem conhecer outros lugares, outros estados, outros países; e se alguém me perguntar onde eu aprendi a observar, sentir, escutar, direi que foi num lugar onde todos são tão parecidos em suas diferenças que tive que apurar os sentidos para discerní-los. Foi num lugar onde todos passavam. E só.




P.S.: Hoje eu moro em Barreiras. Algumas coisas mudaram. Vi muito pôr-do-sol lindo, acompanhado de chuva (porque na minha terra, faz sol até quando chove). E na estrada São Desidério-Barreiras, as luzes na serra são lindas, pois sempre ando no ônibus de 16:30 ou 17:00 horas. E adivinhem onde eu pego o ônibus?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Diversos e Afins


A internet é um meio de comunicação muito vasto e que – relativamente falando – faz com que um número enorme de pessoas tenha acesso a informação e às várias formas de produção que ela possibilita, seja artística, social, econômica, entre outras. É um veículo de informação muito rápido, permitindo que as produções sejam socializadas com maior velocidade. Essa necessidade de número e velocidade acaba, muitas vezes, diminuindo a qualidade daquilo que se é veiculado. Encontrar coisas significativas nas navegações virtuais está cada vez mais difícil.

Descobri, numa dessas navegações virtuais, a revista eletrônica Diversos e Afins. Divulgando novos autores e artistas, essa revista, editada por Fabrício Brandão e Leila Andrade, abarca vários âmbitos artísticos, como a Literatura, Fotografia, Música, Artes Plásticas e muitas outras expressões. O blog possui colaboradores de múltiplos lugares, destacando-se Portugal e outros países de língua latina.

O blog se organiza em “levas”, onde publica textos, pinturas, dicas de cinema e música de artistas de toda a parte do Brasil e do mundo. Está, agora, na quadragésima leva, apresentando as pinturas de Wagner Willian, o novo disco do mineiro Pedro Morais, uma entrevista com o poeta cearense Daniel Mazza e várias dicas de filmes, com direito a resenha e comentários.

Vale a pena passar algumas horas a mais na frente do computador para descobrir pérolas como a Diversos e Afins. Iniciativas como essa nos faz ainda acreditar no poder positivo da internet.