quarta-feira, 25 de maio de 2011

Seca



Esse fogo maldito que me entorta a cara
que me arranca a pele, ferve meu sangue
esse fogo maldito
azul
que nem parece queimar
deita todos os dias em minha cama
e brilha, e brilha
um brilho pálido de morte.

É fogo na vereda, animal correndo
minha pele virando campeiro
filhote de coruja abandonado na chama.

Esse fogo maldito que me entorta a cara
deita todos os dias em minha cama
e entra em meus sonhos.
O farfalhar de asas das araras em fuga
é o sinal da loucura em cada árvore.

Último esconderijo, uma caverna.
Lá dentro, todas as feras copulam.

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre o truque de cartas


Não há maior desespero que a falta de voz.
Nem todo som é, por si, inteligível.
Os ouvidos tardam a perceber verdades
e verdade é rocha inacessível.
Custa a vida chegar lá.

“De metamorfoses vive o homem”, diz a História.
“Seu pão é palavra cabalística, início dos tempos
- resto de magia estendida no universo -
que o transforma sem ser ouvida”.
Mais do mesmo.

O olho aprende a ver o que deve apreender.
Há escolas para isso e nada se questiona.
A verdade é contada de cima, de cima cuspida,
engolida entre uma prosa e outra.
Invenções de crianças crescidas.

Destina-se a humanidade em canetas viciadas.
São os mesmos livros, outras capas apenas,
e suas prateleiras pesam pecados:
são viventes os que escrevem,
sobreviventes os que lêem.

E se fala, corta-se a língua;
E se vê, furam-se os olhos.
E se levanta, derruba.
Mas muitos são as bocas, os olhos e as pernas.
Será demorado, será difícil. Correm-se riscos.

Num momento onde não há escolha
- pois a única saída é escolher-
Fecha-se o vão da história.

Amor em quadrinhos


Eu me vejo Evey,
eu te vejo V.

Eu me vejo Lois Lanne,
eu te vejo Superman.

Eu me vejo Canário Negro,
eu te vejo Arqueiro Verde.

Eu me vejo Jean Grey,
eu te vejo Wolverine.

Eu me vejo Joan Willians
eu te vejo Flash.

Eu me vejo Diana,
eu te vejo Fantasma.

Eu me vejo Mary Jane,
eu te vejo Spiderman.

Eu me vejo Sue,
eu te vejo Reed Richards.

Eu me vejo Barbara Gordon,
eu te vejo Dick Grayson.

Eu me vejo Catwoman.

Eu te vejo, Batman.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Perdição



Eu tenho me esquecido dos deuses.
Estes malditos me cobram sacrifícios que não posso dar.
Toda fé tem limite e eu conheço o sangue derramado.
Agora perambulo nas latrinas
procurando o resto de honra que joguei fora.
Abrir os olhos é masoquismo.
A luz dói mais nesses dias
e eu tenho medo do vindouro.
Existem cartas na manga conhecidas por todos os jogadores
e – Deus! – como eu queria mentir!
Até isso nos é tirado.

Embaralho o destino e retiro um arcano;
ele me diz mais que meus anos de cristandade.
Minhas cruzes, eu as carrego
para o morro onde jazem as barrigudas
(árvores tristes com cabelos ao vento).
Lá eu largo tudo o que é antigo,
e vivo minha natureza humana
decentemente arrumada
pelos meus descréditos.

Soa um sino ao longe, marcando a mudança.