sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A árvore que caminha



Conta minha mãe, todas as vezes que avistamos uma barriguda, que todas as crianças de sua época temiam essa árvore. Segundo a história contada por meu avô, à noite a barriguda caminhava e perseguia as crianças que passavam por debaixo dela. É na época da seca, quando as árvores do cerrado perdem sua abundante folhagem e nos permitem ver as formas de nossa terra, que o tronco da barriguda é descoberto.




É no sopro da seca, quando a terra morre
para renascer nas torrentes de águas divinas
que  as  barrigudas aparecem.
Mar de galhos. E elas.

O verdadeiro tronco entre os espectros de morte,
galhos finos e retorcidos clamando por uma gota.
A verdadeira substância das terras do lado de cá.
O calcário esfumaça os montes.

Quem nunca temeu suas sombras
no morro das Mangueiras?
Quem nelas encostou para provar sua essência?
São guardiãs de uma cidade que não se sustenta.

Nem buriti, nem ingazeira, nem aroeira,
nem arremedo nenhum de árvore
se compara à figura aterradora
da barriguda e seus cabelos ao vento.

Ninguém viu – a noite é manto – suas caminhadas,
depois do sol posto, da lua alta,
ninguém viu – nem verá, suas passadas.
Não viveram, não contarão nada.

domingo, 27 de maio de 2012

O meu cabelo


Nude with a Mirror (1919), Joan Miró

O meu cabelo castanho
lambeu os cantos macios
do travesseiro colorido.
Lambeu a cama toda,
as paredes, o teto.

Lambeu o chão,
fez do chão beira de riacho.
Derramou a água toda
e lambeu a água toda.

Meu cabelo reduziu o grito,
caminhou nas pernas,
incomodou vizinhos.

Depois de tudo feito,
meu cabelo descansou
na mesa do café.

Partida

Coluna Partida (1944), Frida Kahlo


Minha tristeza é profunda
como o vale do Rio Grande.
Não tem barca que alcance
meu encontro com o mar.
É grande, Rio São Francisco.

É uma tristeza nojenta,
menino que joga pedra
e não vê o passarinho.
Minha tristeza é o ninho
sem ninguém pra abraçar.

A minha tristeza é mole;
espera recipiente
pra poder se modelar.
É o choro do doente
no vazio de uma casa.

Minha tristeza nem vai,
nem volta.

Janela


Retirantes (1944), Cândido Portinari

Em cima dos telhados vejo a Morte,
feia, sem graça e preguiçosa.
Passeia devagar, observa a agonia,
ri, toma café, fuma.

Acaricia os gatos, dá o de comer,
acena para as janelas abertas.
Visita as casas, todas suas íntimas,
conversa sobre o tempo, dá conselhos.

Depois de uns minutos, quiçá uma hora,
ela volta. Sem encanto nenhum,
se abaixa e manda a alma levantar.

Em cima dos telhados, ela passeia.
Porque, pra ela, é passeio.
Pra gente, é fim de noite.

domingo, 6 de maio de 2012

Janara Soares em Laboratório de Poéticas - Edição 9

Hoje dei as caras para falar sobre a nona edição da revista Laboratório de Poéticas. Trabalhando com a diversidade cultural brasileira, a revista traz poéticas novas que conversam com as tradições ou rupturas literárias e outras artes. Uma delícia.

Na sessão "outra margem - diálogo entre novos autores do Brasil e do exterior", temos a presença de quatro autores que participaram da coletânea Sangue Novo: o Victor Nascimento de Sá, o Ricardo Thadeu, a Lidiane Nunes e essa garotinha que vos fala.

As edições anteriores estão disponíveis em http://www.labpoeticas.org/. Leiam e conheçam o projeto dessa galera de Diadema que consegue fazer um trabalho fantástico.

Como eles mesmos se definem em seu sítio,

"o ponto de cultura Laboratório de Poéticas vem desdobrar ações desencadeadas nos últimos 12 anos por escritores, pesquisadores, agentes culturais de Diadema – dentro, fora ou (quase sempre) nas brechas do poder público: o Acervo de Arte & Poesia, o ciclo de poesia & filosofia Amor em Tempos de Peste, a oficina Poesia Contemporânea de 97, o grupo Almas Perdidas, a publicação Careta Furyoza, o espetáculo Saturnais, os debates de filosofia Ágora Poética, o grupo e site Palavreiros, o jornal Onívoros, as pesquisas do Núcleo de Cordel, as apreciações críticas Q. Poéticas? as antologias Tempos Perplexos e Tempos & Territórios, o caderno Laboratórios de Poética de 2005.
O Laboratório é uma experiência de autogestão de processos culturais: um coletivo dotado de autonomia & protagonizado por escritores, artistas & pesquisadores da cidade. Seu processo de criação é independente & alternativo. Seus recursos são administrados em regime de gestão compartilhada com os poderes públicos. Sua iniciativa vem de baixo para cima, ligada organicamente a um setor da comunidade local: uma minoria que sente prazer em ler, escrever & pensar (& viver de acordo com aquilo que pensa, lê & escreve). Os redatores & colaboradores do Laboratório não são remunerados pelo ponto de cultura, cujo orçamento é integralmente destinado ao pagamento de serviços gráficos, aquisição de acervos ou realização de eventos".
Confiram.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Estudo 1 - O que faz viver e o que mata




Divindade perdida,
mancha amarela no céu masculino
castrando o orgulho azul dos deuses.

Coroa de espinhos dos pedestres,
rasga a pele de quem luta nas ruas:
poeira e lama, carro e carreta.

Sem adoradores, sem cultos,
sem poemas, sem arte.                      
Beleza esquecida no sofrimento.

Todos andam pela sombra;
todos sombreiam e disfarçam
o morrer de todo dia.

Os olhos não vêem,
os rostos não levantam
e os passos se arrastam.

Os profetas revelaram o que era certo,
escreveram o evangelho de obviedades
que os escravos, coroados, ignoram:

O Sol é a bandeira da Serra da Bandeira.

E recomeça o culto.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Prematuro - Fabrício de Queiroz Venâncio

Poema muito bom de uma pessoa muito boa.


Prematuro

Fiz meu epitáfio aos oito anos,
quando então não tinha dentes
e mascava feito velho.

Pés escondidos sob a lama,
molhada pela chuva fina
que molhava a terra suja.

Gengivas encardidas: não havia sorriso;
costelas à mostra: não havia comida.

As mãos de parentes novos
cavaram a tumba;
meus pais estavam ausentes.

Ausente também estava o caixão:
cova rasa, não havia flores,
só último escarro como despedida.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Céu - Caravana Sereia Bloom

Não é novidade que eu tenho uma paixão enorme pelo trabalho da Céu. Acompanho desde o primeiro cd e fico muito feliz em mostrar aqui o terceiro, saído do forno: Caravana Sereia Bloom. O disco (com um tom brega bem legal) gira em torno da estrada, viagens e tudo o que o caminho pode proporcionar. Aproveitem, pois nos comentários tem o link pra download.



quinta-feira, 8 de março de 2012

Karina Buhr - Porque, antes de tudo, ela é poeta...

Esse link abaixo vai bater lá no Youtube, numa música de Karina Buhr chamada Guitarristas de Copacabana. Além da sonoridade, que é fantástica, prestem atenção na letra. Procurem, também, as músicas Nassira e Najif e Cara Palavra. Esta última é um jogo fantástico de palavras questionando a normalidade do signo, uma viagem e tanto. Aproveitem!


Nova Cajuína

O que se perde quando fala uma mentira
é o que se ganha quando a fala dissemina.
Quem perde o jogo está parado na esquina,
quem ganha, passa com terno de gabardina.
Vence, também, quem tem dinheiro e patrocina
o carnaval, o futebol e a chacina.
Sabemos como o sofrimento se origina:
com as falácias dos homens de gabardina,
quando as cabeças abaixadas na esquina
são batizadas com os porretes da polícia.

Não tem poesia nesta outra Cajuína.