domingo, 27 de maio de 2012

O meu cabelo


Nude with a Mirror (1919), Joan Miró

O meu cabelo castanho
lambeu os cantos macios
do travesseiro colorido.
Lambeu a cama toda,
as paredes, o teto.

Lambeu o chão,
fez do chão beira de riacho.
Derramou a água toda
e lambeu a água toda.

Meu cabelo reduziu o grito,
caminhou nas pernas,
incomodou vizinhos.

Depois de tudo feito,
meu cabelo descansou
na mesa do café.

Partida

Coluna Partida (1944), Frida Kahlo


Minha tristeza é profunda
como o vale do Rio Grande.
Não tem barca que alcance
meu encontro com o mar.
É grande, Rio São Francisco.

É uma tristeza nojenta,
menino que joga pedra
e não vê o passarinho.
Minha tristeza é o ninho
sem ninguém pra abraçar.

A minha tristeza é mole;
espera recipiente
pra poder se modelar.
É o choro do doente
no vazio de uma casa.

Minha tristeza nem vai,
nem volta.

Janela


Retirantes (1944), Cândido Portinari

Em cima dos telhados vejo a Morte,
feia, sem graça e preguiçosa.
Passeia devagar, observa a agonia,
ri, toma café, fuma.

Acaricia os gatos, dá o de comer,
acena para as janelas abertas.
Visita as casas, todas suas íntimas,
conversa sobre o tempo, dá conselhos.

Depois de uns minutos, quiçá uma hora,
ela volta. Sem encanto nenhum,
se abaixa e manda a alma levantar.

Em cima dos telhados, ela passeia.
Porque, pra ela, é passeio.
Pra gente, é fim de noite.

domingo, 6 de maio de 2012

Janara Soares em Laboratório de Poéticas - Edição 9

Hoje dei as caras para falar sobre a nona edição da revista Laboratório de Poéticas. Trabalhando com a diversidade cultural brasileira, a revista traz poéticas novas que conversam com as tradições ou rupturas literárias e outras artes. Uma delícia.

Na sessão "outra margem - diálogo entre novos autores do Brasil e do exterior", temos a presença de quatro autores que participaram da coletânea Sangue Novo: o Victor Nascimento de Sá, o Ricardo Thadeu, a Lidiane Nunes e essa garotinha que vos fala.

As edições anteriores estão disponíveis em http://www.labpoeticas.org/. Leiam e conheçam o projeto dessa galera de Diadema que consegue fazer um trabalho fantástico.

Como eles mesmos se definem em seu sítio,

"o ponto de cultura Laboratório de Poéticas vem desdobrar ações desencadeadas nos últimos 12 anos por escritores, pesquisadores, agentes culturais de Diadema – dentro, fora ou (quase sempre) nas brechas do poder público: o Acervo de Arte & Poesia, o ciclo de poesia & filosofia Amor em Tempos de Peste, a oficina Poesia Contemporânea de 97, o grupo Almas Perdidas, a publicação Careta Furyoza, o espetáculo Saturnais, os debates de filosofia Ágora Poética, o grupo e site Palavreiros, o jornal Onívoros, as pesquisas do Núcleo de Cordel, as apreciações críticas Q. Poéticas? as antologias Tempos Perplexos e Tempos & Territórios, o caderno Laboratórios de Poética de 2005.
O Laboratório é uma experiência de autogestão de processos culturais: um coletivo dotado de autonomia & protagonizado por escritores, artistas & pesquisadores da cidade. Seu processo de criação é independente & alternativo. Seus recursos são administrados em regime de gestão compartilhada com os poderes públicos. Sua iniciativa vem de baixo para cima, ligada organicamente a um setor da comunidade local: uma minoria que sente prazer em ler, escrever & pensar (& viver de acordo com aquilo que pensa, lê & escreve). Os redatores & colaboradores do Laboratório não são remunerados pelo ponto de cultura, cujo orçamento é integralmente destinado ao pagamento de serviços gráficos, aquisição de acervos ou realização de eventos".
Confiram.