quinta-feira, 18 de julho de 2013

Viagem

Eu tenho que quebrar as cercas da consciência: matar os guardas, atirar nos cães, desativar o sistema elétrico. Eu preciso ampliar limites, caminhar pelas trilhas que ela escondeu, comer do fruto da árvore do bem e do mal e acariciar as onças que ela me fez temer.

Eu tenho que empurrar a porta da consciência. Golpeá-la, destruí-la, queimá-la, e deixar a consciência à mostra, despojada das suas máscaras e sandálias. Quero olhar nos seus olhos e ver o que há por dentro, deslindar as reentrâncias, descobrir os odores, discernir suas estratégias de controle.

Eu tenho que entrar na casa da consciência, encontrá-la no momento mais íntimo de sua existência. Quero vê-la no banheiro, colocando pra fora as asneiras com que alimenta meu cérebro. Vamos tomar café e discutir as louças na cozinha, as flores no jardim, pegar umas mudas pra levar pra casa.

Eu tenho que enganar a consciência. Pedir uma foto antiga, mais açúcar para o café, umas torradas, talvez. A consciência é esperta, pois carrega muita maldade dentro de si.


Eu tenho que entrar no sótão da consciência, pois lá ela guarda o que me é mais precioso.

William Blake. The Angel of Revelation (1803-1805)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

História estendida da humanidade

Era a mulher e as mulheres eram nada.
Era a barriga, uma barriga toda inchada.
Era um útero maior que a mulher.
Era a vasilha, o copo sujo, a roupa seca.

Era um desastre, era a tristeza, era o tormento,
o esquecimento, a dor profunda, funda falta.
Era um corpo, era um cabelo, era uma faca
e na estaca se perdia a vida insossa.

Era um homem que era tudo e nada era.
A hera é ela, ela é o pecado, a maçã podre.
Era um deus, só eram deuses, são só deuses.

E é a culpa e o silêncio e a mortalha.


Mulheres Protestando. Di Cavalcanti, 1941.

Criação de Adão

Deságua em mim uma torrente de lembranças.
A água, no estio, é amarga. O céu nem canta.
Abençoamos nossos filhos e os matamos;
o fim de cada pai, de cada riso, de cada amor
está no altar do sacrifício, nos olhos do deus.
E os deuses? Envelhecem, e só.


William Blake. Elohim Creating Adam (1795/c.1805)