quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Das penas e do tempo

Edvard Munch. A criança doente, 1896.

Eu envelheci.
Eu perdi a rima, o tom,
não sei dos roteiros,
não sei das cenas,
matei as metáforas,
as metonímias fugiram.
O lápis foi embora
no caminhão do lixo.

Eu envelheci.
E nesse processo biológico
não apareceram rugas.
Os cabelos ainda são negros,
as mãos não confessam,
as pernas se mantêm,
as costas doem pouco
e os caminhos não mudaram.

Eu envelheci.
E nesse desastre ecológico
Destruí a única coisa
A coisa simples
A coisa verdadeira
A coisa cosmológica
A coisa coisa:


Minha alma infanta.