quinta-feira, 22 de abril de 2010

Escolas Municipais que não são Escolas

Venho tratar hoje de um assunto importantíssimo, mas pouco debatido: a educação no município de Barreiras. Tenho isso como algo importante, inicialmente, pelo próprio valor social e vital da educação, e, em segundo lugar, por trabalhar como assistente administrativa em uma escola da zona rural, estando, pois, lidando constantemente com as dificuldades dessa Unidade de Ensino.

Nossa escola está situada no Povoado de Baraúna, a poucos quilômetros da sede, na estrada para São Desidério. É a única instituição pública de ensino, e abrange não só crianças, jovens e adultos do povoado, mas também de outras localidades rurais dos arredores. Por ser zona rural, já possui o estigma de inferioridade em relação à sede; é fato que não possuímos as várias oportunidades que a zona urbana oferece, mas, se isso acontece, é por falta de iniciativa da administração da cidade.

A educação, no entanto, não deve ser medida como superior ou inferior: todos têm direito à educação igualitária e de qualidade. Mas o que vemos em nossa escola, a começar pelo essencial, não tem nada a ver com isso. A estrutura da escola simplesmente não tem condições de abrigar qualquer atividade que se tencione fazer. O telhado danificado faz com que as águas da chuva alaguem a escola; os banheiros estão inutilizáveis; a maiora das salas não possui energia; não há biblioteca e o acervo da escola é constantemente danificado pelas condições precárias de alojamento; apesar de estarmos na era da informação, há apenas um computador, e sem internet, ao qual os alunos sequer têm acesso; ainda se usa mimiógrafo; não há merendeira à noite, e os alunos que chegam do trabalho muitas vezes sem jantar passam fome até o horário de ir embora, isso quando não evadem; os quadros são de giz, o que ocasiona alergias, problemas respiratórios e de pele, tanto nos professores quanto nos alunos que aspiram o pó. Uma reforma foi prometida há tempos, mas até hoje não vemos qualquer sinal dela, e a direção da escola faz malabarismos incríveis para manter a escola funcionando com o mínimo de dignidade.

Esses são apenas alguns dos vários problemas da escola. E se formos colocar a questão num âmbito mais abrangente, deveríamos falar do povoado como um todo. Não há uma parada de ônibus na pista ou iluminação decente. As pessoas que dependem do transporte público passam risco de vida todas as noites na escuridão da estrada. Os ônibus que circulam entre a zona rural e a sede do município envergonham qualquer cidadão barreirense. Os buracos na entrada do povoado, que acumulam água das chuvas, fazem até os motoristas dos ônibus passarem sufoco na direção.

Tenho em mente que colocar flores na cidade ou fazer festas é algo menos importante do que sanar as dificuldades reais dos munícipes. Uma administração não deve se pautar em eventos para enaltecer a imagem do administrador: problemas concretos estão acontecendo todos os dias em Barreiras. Pessoas passam fome, não possuem moradia, morrem por falta de atendimento médico de qualidade, têm uma educação que simplesmente não é educação.

Enfim, as crianças, os jovens e os adultos do Povoado de Baraúna possuem apenas essa escola para terem acesso à educação. Deixá-la de lado é a pior barbaridade que se pode fazer com eles. A escola, na situação em que se encontra, é uma afronta à dignidade dos moradores desse local.

Venho pedir não a atenção dos governantes, pois eles conhecem a situação. Não é possível que ainda aleguem que não saibam de tais problemas. Venho pedir a atenção dos munícipes, dos moradores dos povoados, dos cidadãos barreirenses para cobrar medidas urgentes dos governantes. Por incrível que pareça, no século em que estamos, depois de tantos avanços sociais, cidadãos e professores ainda têm MEDO de se manifestar.

Não precisamos dessa agressão e dominação política. Precisamos de boas escolas, de condições dignas de vida, e é por isso que devemos lutar.
 

Sonho

Sonhava que a luz não existia
e as cores eram cores por si só.
Podia tocá-las! E elas, densas,
Se desfaziam como algodão doce
lentamente lambido,
lentamente salivado.

Nesse sonho o azul royal
– antes tão aristocrata –
era liberto para amar
todos os vermelhos dos cardeais.
E a Inquisição não se importava.

Os seios não eram rosas, os seios;
eram girassóis dourados.
Cansados da delicadeza do veludo,
percorreram outros campos.
Mais ainda floridos, os seios.

Os sons tomaram formas
E meus olhos se alegraram:
como o Gato, o Dó maior me sorria.
Era vermelho intenso o Si menor
e voava feito águia.

E quando Morpheus resolveu me deixar
espantado pela chegada de Aurora
restou um cobertor no chão
e um rosto no espelho que eu quase desconhecia.
Voltei para a cama. A vida podia esperar.