terça-feira, 10 de abril de 2012

Estudo 1 - O que faz viver e o que mata




Divindade perdida,
mancha amarela no céu masculino
castrando o orgulho azul dos deuses.

Coroa de espinhos dos pedestres,
rasga a pele de quem luta nas ruas:
poeira e lama, carro e carreta.

Sem adoradores, sem cultos,
sem poemas, sem arte.                      
Beleza esquecida no sofrimento.

Todos andam pela sombra;
todos sombreiam e disfarçam
o morrer de todo dia.

Os olhos não vêem,
os rostos não levantam
e os passos se arrastam.

Os profetas revelaram o que era certo,
escreveram o evangelho de obviedades
que os escravos, coroados, ignoram:

O Sol é a bandeira da Serra da Bandeira.

E recomeça o culto.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Prematuro - Fabrício de Queiroz Venâncio

Poema muito bom de uma pessoa muito boa.


Prematuro

Fiz meu epitáfio aos oito anos,
quando então não tinha dentes
e mascava feito velho.

Pés escondidos sob a lama,
molhada pela chuva fina
que molhava a terra suja.

Gengivas encardidas: não havia sorriso;
costelas à mostra: não havia comida.

As mãos de parentes novos
cavaram a tumba;
meus pais estavam ausentes.

Ausente também estava o caixão:
cova rasa, não havia flores,
só último escarro como despedida.