quarta-feira, 31 de março de 2010

Formigas no açucareiro - por FN

 Roubado descaradamente da Churrascaria Almaminhadealcatra

   
Formigas no açucareiro

“É preciso dançar conforme a música”.
Conhece alguma frase mais castradora do que essa?
Tem outras que chegam perto, tipo: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, muito repetida e cada vez mais obedecida. 
Tem essa também: “Nadou, nadou... e morreu na praia”, que além de fúnebre sugere o absurdo de que o sujeito ao cair no mar devia logo se afogar, poupando suas energias, sabe-se pra quê.
E aquela expressão “dar murro em ponta de faca”? Vai pelo mesmo caminho da resignação, da subserviência.
O fato é que todas elas estão bem sedimentadas em nossas cabeças de cordeirinhos. Pertencem à mesma linhagem da prepotência por um lado; do conformismo por outro. No fundo, fazem um elogio a quem sabe viver das migalhas que a vida oferece, em dólares, euros, cartões de crédito, todos os seus desejos em até dez vezes sem acréscimo. Não há como escapar. De um jeito ou de outro, cairemos todos na armadilha.

Agora, só pra não deixar o fatalismo exibir um sorriso triunfal, deixando à mostra seus dentes podres, imagine inverter o conteúdo da primeira frase e propor algo como: “Indispensável NÃO dançar conforme a música”. 
Pense na idéia tomando corpo, sorrateiramente se espalhando, contagiando mentes livres, corações abertos. Os loucos contestadores abrindo caminho por entre os escombros da mesmice, trombando com o “razoável”.
Está mais do que na hora de deflagrar uma dessas revoltas natimortas, que escarnecem do bom senso e recusam lembranças articuladas, narrativas lineares. Fragmentos que fazem explodir a pergunta: “Que banda é essa que toca pra gente dançar conforme a música?”
Escapar das grades que nos cercam; fazer algo, que não seja o “criar”, com outras palavras e cenas, o que há muito já foi criado e recriado: a revolta da fuga.
Formigas no açucareiro? De lá não sairão por vontade própria. 

sexta-feira, 19 de março de 2010

Garganta


Eu preciso de um fósforo ou isqueiro,
quero algo qualquer que faça fogo.
Há um cigarro amargo a ser queimado,
há uma fumaça densa pra engolir.

Há um cigarro amargo pra acender.
Quero a seda mais branca que houver
se enrolando na palha da Angústia:
minha saliva selando seu destino.

Em minha frente existe uma parede
Rachaduras de um outro terremoto
E o lodo de chuvas já choradas
É a pintura que vejo em meu limite.

A fumaça chega ao muro e pára:
Não há céu para onde vá subir.
Uma bola cinzenta escapa à boca
É a Angústia queimada, sem porvir.

Luta e Resistência em Barreiras

Esse texto foi publicado em "Idéias são à prova de bala", blog da Paula Vielmo.

QUARTA-FEIRA, 10 DE MARÇO 

Saindo do trabalho e indo almoçar, me deparei com um manifesto de rua em frente a Prefeitura Municipal, organizado e protagonizado por estudantes e professores/as do campus avançado da UFBA em Barreiras. A reivindicação: acesso ao campus da Prainha, que estava impossibilitado devido às chuvas que tornaram a estrada em lama pura e a ponte que "balança mas não caí", não se sabe até quando.

Na manifestação - pelo que soube - não planejada antecipadamente, mas dirigida pela extrapolação da revolta com o descaso da administração municipal, provocou um grande impacto naquele dia. O trânsito estava bloqueado e a polícia chegou para desbloquear. Os/as manifestantes não saíram e o confronto foi direto. Os policiais presentes agrediram estudantes e prenderam um professor. Isso tudo enquanto uma comissão conversava no gabinete da prefeita, sem a presença dela e com a equipe sem autonomia que ela dirige.

Corre-corre e resistência. Grande resistência protagonizada sobretudo pela juventude ousada lá presente. O professor no carro, num calor insuportável, desmaiou. E mais uma vez vi a soberania descabida que um mandato popular tem sobre o povo.

E eu também estava lá, no sol quente como tantos/as, torrando no meu horário de almoço, reforçando os gritos de ordem e empolgada pela ação ufbaniana.

A manifestação legítima teve impacto porque foi no centro e parou o trânsito. E foi necessário parar, porque se as pessoas não são prejudicadas um pouco no seu individualismo, não percebem. Estamos numa sociedade que "se não é comigo, não é da minha conta". A causa levantada pela UFBA de acesso é de todo povo de Barreiras, antiga inclusive, mas que só agora torná-se visivel: pela implantação do campus e pela mobilização da comunidade acadêmica ufbaniana.

No entanto, a ação da polícia, foi extremamente truculenta! A polícia estava desnorteada, justamente porque não tem formação para dialogar com os movimentos sociais ou reivindicatórios. A formação da polícia é justamente para fazer o que fez: reprimir! Não é a toa que é chamada de "Aparelho de Repressão do Estado". O que me deixa triste é o fato de que a polícia, é mais do que aparelho de repressão, ela é classe trabalhadora e também é oprimida e foi duro ver oprimidos agredindo oprimidos. Não estou defendendo a ação truculenta da polícia, mas refletindo sobre a função dela e entendendo que é composta por seres humanos que estão do mesmo lado que nós. Foi revoltante ver o professor até então desconhecido e recém-chegada a Barreiras ser jogado, com o doutorado e tudo dentro do camburão. E naquele instante não importava ser Doutor, o que estava em questão era que ele fazia parte de quem causava a desordem e ameaçava a "autoridade" da polícia enquanto instituição repressora.

Fiquei muito emocionada com aquela manifestação, com o impacto que causou. Acredito que ela venha se somar a todas as que já existiram antes (e sim, povo passivo de Barreiras, já existiram outras) e de maneira lenta, sacudir a estrutura e cultura do nosso povo, permitindo que tais manifestos se tornem algo mais frequente que as conversas de gabinete e que a cultura do medo que impera por estas bandas seja aos poucos destruída e substituída pela cultura da organização popular.

 (Quem quiser ver o vídeo, está aqui.)

Liberdade

Ela se encaixa em todos os delitos.
Em todas as culpas ela é a primeira
das primeiras a não pedir perdão.

Ela não se esconde dos dedos rígidos
apontados por mãos envelhecidas,
por rugas indecentes, apocalípticas.

Ela se destoa de todas as canções
e não protege os ouvidos ásperos
das litanias cantadas ao inferno.

Por milhares de anos ela é
e sua existência amarrotada
descumpre todos os ritos,
gera todos os conflitos,
altera todos os canais.

Ela é – simples. E tropeça nos pés
dos que se levantam contra ela
e, por vezes, nos próprios pés.

Ela? Existe.
E as folhas das mangueiras, no verão,
Dançam apenas para ela.

Oficina de Cinema Um Conto e Um Roteiro

O Colegiado do curso de Letras, do Campus IX da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Barreiras, promove a oficina de cinema Um Conto e um Roteiro, nos dias 19, 20 e 21 de março.

A oficina, ministrada pela professora de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Cristina Fonseca, tem como objetivo promover a leitura intersemiótica das linguagens literária, televisiva e cinematográfica.

Essa é uma oportunidade ímpar de conhecer um pouco mais sobre a produção de roteiros e adaptação de contos. Além disso, esse curso é ministrado por uma profissional extremamente gabaritada”, observa a professora Maria Aparecida Guimarães, coordenadora do colegiado.

Estão sendo oferecidas 50 vagas voltadas para estudantes dos cursos de Letras, Comunicação Social e áreas afins. O investimento é de R$ 100 e as inscrições podem ser realizadas até o dia 20 de março, no colegiado do curso.

“A iniciativa de trazer a ação para Barreiras foi da professora Nelma Santos. Ela fez a oficina em São Paulo e adorou. A UNEB não só aprovou como colaborou, custeando as passagens aéreas da professora Cristina”, conta Aparecida.

As atividades acontecerão na sexta-feira (dia 19) das 19h às 23h, e no sábado e domingo (dias 20 e 21), das 8h às 12h e das 14 às 18h. Os dois primeiros dias da oficina serão na sala de vídeo do Departamento de Ciências Humanas (DCH) e o último, na sede da Cooperativa Educacional de Barreiras (Copebe), que apoia a ação.

Informações: Colegiado do curso de Letras/Campus IX - Tel.: (77) 3612-6744.
 
Notícia no Portal Uneb
 

Miguel


Ele chega trajando uma camisa parda
Caminhando com a paciência dos séculos
Cabelo caído numa face sem cor
Escondendo em seu olho os fins dos milênios.

Sem armadura, espada ou cota de malha
Sentou ao meu lado, forçando um sorriso.
Pediu uma cerveja, meio descontente.
No sereno da mesa desenhou um círculo.

– Cansei de Guerras, – me disse o arcanjo,
– muito trabalho, o pagamento é pouco.
Já vi de tudo. Só falta ser humano.

– E a glória? – Depende do ângulo.
Sorriu de novo, pediu outra cadeira...
Encheu mais um copo. Jorge vem chegando.

Balada das Sete Horas

Quando eu pensava nos relógios
– passavam-se as horas –
num sofá de algum lugar:
casa café cabaré
os relógios me sorriam canções
tão distantes e rígidas...
Ás vezes eu podia tocá-las!
Um Danúbio Azul,
um Lago dos Cisnes
ou apenas sinos opacos
graves no seu badalar.

Passavam-se as horas.
Os sofás se iam.
As canções – eternas?
Não. Havia outras.
Mas os relógios...
Os relógios e eu.
Eu, sempre pensando neles.
Eles, sempre sorrindo canções.