quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Vassoura

Numa dessas madrugadas preenchidas pela lua,
(pois as luas não servem para outra coisa)
escutei uma vassoura limpando o esgoto em minha porta.
A vassoura carinhava cuidadosamente
a água densa e mole
como se fosse um filho.
Imaginei um cachorro
desses cheios de feridas,
acompanhantes de vagabundos,
brincando com o lixo não visto pelos garis.
Mas os cachorros da minha cidade dormem cedo.
Imaginei ser um vagabundo
desses acompanhados por cachorros
sem cama, sem álcool,
chafurdando na lama que lhe demos de colchão.
Mas não! Era uma vassoura
na madrugada
empurrando para outras portas
seus honestos dejetos
os fins de seus meios
a crônica de seus dias.
Depois de minha porta
esse esgoto percorreu outras portas
que não sei quais.
Ficou o barulho lento - chap, chap,
da água obrigada a correr.
Uma vassoura dançando
em alguma insônia
provocada por uma conta não paga,
por um amor desinteressante
ou interessante demais.
Ainda assim, uma maldita vassoura,
numa madrugada maldita
atrapalhando meu sono.

As coisas se perdem em sua própria natureza.

Certeza

Espero um trem.
Um troço qualquer que me desmembre,
que me desintegre na poeira para a qual eu devo voltar.
Espero que me carregue
- sentido único da minha mudança –
para o espaço, corpo de deus,
uma viagem de ida para o fim dos dias.
Para um início que eu não sei.

Os rumores de vida me doem,
pois constelam numa galáxia que não alcanço.
... e a afirmação é sempre mais doída,
quando se sabe da própria cegueira,
das cores que não se pode tocar.

No final, esse trem é apenas brisa.
(e cada lua é um não sei quê de partida…)

Teoria da Composição

Minha vontade é escrever.
Escrever tudo, escrever livremente,
escrever com as mãos, com os lábios, com a mente, com o corpo.
Usar todos os tipos de papéis: sulfite, ofício, monitor, cama, corpo, parede, boca.
Escrever, escrever, escrever!
Como um vício, como um impulso, id liberto e elevado à última potência.
Percepção adulterada para criar.
Vinho, haxixe, ópio.
Poesia, vinho, virtude.
Cores, sons, toques, cheiros, quartas e quintas dimensões.
Tudo evoco quando escrevo.
Porque posso, porque devo fazê-lo.
Não é simples, não é fácil. Tem que viajar
– em todos os aspectos.
Tem que se estender no chão e fumar um cigarro e beber um café.
Tem que chover, para sentir o cheiro da terra,
porque sou terra, de seu pó fui feita e para ela, como pó, voltarei.
A verdade é que meus sentidos não são assim, tão apurados.
Tenho que sentar, que concentrar, que apertar os olhos,
que lamber três vezes e fungar milhares.
Os toques? (quando você me ajuda, são muitos).
Só os sons, esses é que me penetram rápido.
E forte.
Batidas de sons entram pelo ouvido, passeiam pelo cérebro,
apostam corrida na minha corrente sanguínea,
invadem meu intestino, se acoplam, qual nicotina, em meus pulmões;
brincam com meu coração: querem saber qual batucada é mais bonita.
Aí, sim, escrevo.
As palavras fluem e se divertem com os sons.
Relaxam.
Aí, sim, dá pra escrever;
apuro os outros sentidos e faço-os poesia.