quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Vassoura

Numa dessas madrugadas preenchidas pela lua,
(pois as luas não servem para outra coisa)
escutei uma vassoura limpando o esgoto em minha porta.
A vassoura carinhava cuidadosamente
a água densa e mole
como se fosse um filho.
Imaginei um cachorro
desses cheios de feridas,
acompanhantes de vagabundos,
brincando com o lixo não visto pelos garis.
Mas os cachorros da minha cidade dormem cedo.
Imaginei ser um vagabundo
desses acompanhados por cachorros
sem cama, sem álcool,
chafurdando na lama que lhe demos de colchão.
Mas não! Era uma vassoura
na madrugada
empurrando para outras portas
seus honestos dejetos
os fins de seus meios
a crônica de seus dias.
Depois de minha porta
esse esgoto percorreu outras portas
que não sei quais.
Ficou o barulho lento - chap, chap,
da água obrigada a correr.
Uma vassoura dançando
em alguma insônia
provocada por uma conta não paga,
por um amor desinteressante
ou interessante demais.
Ainda assim, uma maldita vassoura,
numa madrugada maldita
atrapalhando meu sono.

As coisas se perdem em sua própria natureza.

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