terça-feira, 27 de julho de 2010

O Grande Rio

Minha porta está fechada.

Enquanto isso corre o boato
dos corpos sem coração.

Foram encontrados ontem
- às margens do grande rio –
molhados por tanto pranto
que as mulheres carpideiras
não se puseram a chorar.
Em cada peito um buraco
– como quando se planta uma árvore –
cada um, ali, perdido,
pedindo alguma semente.
Os joelhos estavam inchados,
das mãos corriam sangue e cera,
os pés calejados dormiam
o sono de toda uma vida.

Dizem nos botecos, à meia luz,
que há muito os corações já não existiam.
as pobres vítimas não eram tão pobres
e a morte sabe o que faz.

Dizem, como sempre, dizem
que os corações evaporaram,
não havia mais lugar ali
para um coração existir.

Dizem, como sempre acontece
quando aparece alguma notícia,
dizem que cada corpo trazia em si
um pouquinho do nada do inferno.
Que qualquer pedaço de vazio
é como uma maçã podre no cesto.

Minha porta está fechada.
Não quero ser encontrada
às margens do grande rio.

De repente os meus sábados são sagrados

De repente os meus sábados são sagrados
e é uma odisséia deixar a cama.
Os pensamentos não são sublimes
mas as almas levitam ares novos.

Em cada manhã as pernas se beijam;
o chão é mais que uma opção.
Se o teto se tornar branco
podemos inventar novas luzes.

Os fins são como os começos:
as risadas se repetem sempre;
sempre se repete o roteiro.
Mas há um quê de novidade.

A felicidade não é tão difícil.