terça-feira, 27 de julho de 2010

O Grande Rio

Minha porta está fechada.

Enquanto isso corre o boato
dos corpos sem coração.

Foram encontrados ontem
- às margens do grande rio –
molhados por tanto pranto
que as mulheres carpideiras
não se puseram a chorar.
Em cada peito um buraco
– como quando se planta uma árvore –
cada um, ali, perdido,
pedindo alguma semente.
Os joelhos estavam inchados,
das mãos corriam sangue e cera,
os pés calejados dormiam
o sono de toda uma vida.

Dizem nos botecos, à meia luz,
que há muito os corações já não existiam.
as pobres vítimas não eram tão pobres
e a morte sabe o que faz.

Dizem, como sempre, dizem
que os corações evaporaram,
não havia mais lugar ali
para um coração existir.

Dizem, como sempre acontece
quando aparece alguma notícia,
dizem que cada corpo trazia em si
um pouquinho do nada do inferno.
Que qualquer pedaço de vazio
é como uma maçã podre no cesto.

Minha porta está fechada.
Não quero ser encontrada
às margens do grande rio.

4 comentários:

  1. Um dia fecharão os botecos, queimarão os cinemas, destruirão as igrejas... Não haverá mais como fugir. Se alguém bater à tua porta, não abra jamais! É Caronte que te cobra. (Magnífica poesia a tua)

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  2. Janara!!! Que boa surpresa...uma revelação poética. Parabéns. Nelma / Dores

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  3. Lála, será que preciso dizer algo mais? Ahn? Sem cobranças, sem cobranças... ;)

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  4. Linda poesia minha prima, lindo blog. Agora seu blog terá mais um seguidor, vou te apresentá-lo pros meus amigos poetas também..

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Quebre o silêncio!