domingo, 22 de novembro de 2009

Falta

De todos os dissabores
guardados a sete chaves
no cofre secreto do tempo
um resolveu fugir.

Era noite de chuva fina
e a chuva me dizia
(soluçando baixinho)
que esquecer não valia a pena.

De todos os dissabores
escondidos no coração
– músculo teimoso e vadio –
um queimava feito larva.

Era dia de São João.
Bastou um toque apenas
e ardi feito uma fênix
sem poder de ressurgir.

De todos os dissabores
do livro da minha vida,
escritos a pena e sangue,
um se achava segredo.

Cansou da poeira das horas
E numa revolta de vento
Revelou-se num grito surdo
De acauã sem maldição.

E pedras rolaram soltas
nas ladeiras nuas da cidade,
das ruas que ninguém visita,
da escuridão que ninguém fotografa.

Esmagaram o dissabor.
Aquele que resolveu fugir,
Que queimava feito larva
E revelou-se num grito.

De todos os dissabores
que procurei guardar
nos espaços remotos da lembrança,
foi esse o que mais amei.

E tudo está tão vazio
Falta um pedaço em mim
E, por mais dissabores que eu tenha,
Nenhum é tão grande

Para tomar-lhe o lugar.
No fundo, faz falta.

Um comentário:

  1. ... Por falar em ritmo, ótimo!!! Bom demais, Lála. O tema, a idéia: algo que devia ser ruim, some, desaparece, mas faz falta, quanta falta faz. Poesia pura. Cecília ia gostar, acho eu. Parabéns. Fn

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Quebre o silêncio!