Eu tenho que quebrar as cercas da
consciência: matar os guardas, atirar nos cães, desativar o sistema elétrico.
Eu preciso ampliar limites, caminhar pelas trilhas que ela escondeu, comer do
fruto da árvore do bem e do mal e acariciar as onças que ela me fez temer.
Eu tenho que empurrar a porta da
consciência. Golpeá-la, destruí-la, queimá-la, e deixar a consciência à mostra,
despojada das suas máscaras e sandálias. Quero olhar nos seus olhos e ver o que
há por dentro, deslindar as reentrâncias, descobrir os odores, discernir suas
estratégias de controle.
Eu tenho que entrar na casa da
consciência, encontrá-la no momento mais íntimo de sua existência. Quero vê-la
no banheiro, colocando pra fora as asneiras com que alimenta meu cérebro. Vamos
tomar café e discutir as louças na cozinha, as flores no jardim, pegar umas
mudas pra levar pra casa.
Eu tenho que enganar a
consciência. Pedir uma foto antiga, mais açúcar para o café, umas torradas,
talvez. A consciência é esperta, pois carrega muita maldade dentro de si.
Eu tenho que entrar no sótão da
consciência, pois lá ela guarda o que me é mais precioso.
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| William Blake. The Angel of Revelation (1803-1805) |

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