sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A árvore que caminha



Conta minha mãe, todas as vezes que avistamos uma barriguda, que todas as crianças de sua época temiam essa árvore. Segundo a história contada por meu avô, à noite a barriguda caminhava e perseguia as crianças que passavam por debaixo dela. É na época da seca, quando as árvores do cerrado perdem sua abundante folhagem e nos permitem ver as formas de nossa terra, que o tronco da barriguda é descoberto.




É no sopro da seca, quando a terra morre
para renascer nas torrentes de águas divinas
que  as  barrigudas aparecem.
Mar de galhos. E elas.

O verdadeiro tronco entre os espectros de morte,
galhos finos e retorcidos clamando por uma gota.
A verdadeira substância das terras do lado de cá.
O calcário esfumaça os montes.

Quem nunca temeu suas sombras
no morro das Mangueiras?
Quem nelas encostou para provar sua essência?
São guardiãs de uma cidade que não se sustenta.

Nem buriti, nem ingazeira, nem aroeira,
nem arremedo nenhum de árvore
se compara à figura aterradora
da barriguda e seus cabelos ao vento.

Ninguém viu – a noite é manto – suas caminhadas,
depois do sol posto, da lua alta,
ninguém viu – nem verá, suas passadas.
Não viveram, não contarão nada.

Um comentário:

  1. Por um instante a noite e o ar condicionado foram substituídos pela brisa e pelo dia.

    Adorei o poema

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