quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pablo Neruda brinca de ser criança: Livro das Perguntas



A escola onde eu trabalho possui uma pseudo-biblioteca (explico: uma sala de aula onde ficam todos os livros existentes na escola, didáticos e paradidáticos). Como fico lá durante o tempo entre o turno da tarde e o da noite, costumo fuçar os livros. Sempre há de se encontrar um livro interessante em bibliotecas de escolas antigas. Foi numa dessas incursões que encontrei o livro que se tornaria um dos marcos de minha vida de leitora: “Livro das Perguntas”, do incrível Pablo Neruda. Detalhe: publicado em 2008 aqui no Brasil, teve como tradutor ninguém menos que Ferreira Gullar.

O livro consiste – falando superficialmente – em perguntas infantis sobre as coisas da vida, uma verdadeira tentativa de construir significados num mundo onde o que menos há é significado. E não são simplesmente perguntas: são reflexões cheias de poesia, com uma lírica estrondosa, e ao mesmo tempo detentoras da suavidade das interrogações das crianças, como vemos nos trechos seguintes:



Sofre mais quem espera sempre
Ou quem nunca esperou ninguém?

Onde termina o arco-íris,
Em tua alma ou no horizonte?

Talvez uma estrela invisível
Seja o céu dos suicidas?

Onde estão as vinhas de ferro
De onde cai o meteoro?


E o que faz o livro ficar mais especial ainda é a arte de Isidoro Ferrer, que ilustra o livro com imagens lúdicas, brincando com todas as formas de criar: colagens, montagens, fotografias, formando paisagens, caricaturas, objetos, entre outras fantasias.

O livro ainda traz, no final, depoimentos de crianças imaginando quem seria Pablo Neruda, bem como os outros participantes da construção do livro. Os depoimentos, cheios de fantasias, histórias sobre como começaram a escrever ou ilustrar, são de uma riqueza tão grande, que se tornam parte indispensável para a criação do significado do livro. Enfim, uma obra prima que não pode deixar de ser lida, ou melhor, saboreada, com todas as caldas de chocolate, as cerejas por cima, com direito a castanhas, tudo isso deitado no sofá, com um cobertor até o ventre, num dia gostoso de chuva. 
 

 

Um comentário:

  1. As desiderianas estão abjurando sua terra natal em benefício de outras plagas vizinhas. Mas, tudo bem, desde que continuem produzindo, e produzindo, e produzindo... Qualidade no pensar e no dizer. Não falei que a fase era ótima? rs

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